"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

CN INTERNACIONAL - Divulgação: Primeira Semana Árabe Fearab Brasil








A formação da cultura brasileira recebeu forte influência de várias outras culturas que ajudaram, ao longo dos últimos 514 anos, a consolidar nossa tão característica diversidade cultural.

Dentre essas múltiplas influências, a cultura árabe é uma das mais marcantes, com reflexos na gastronomia, no vestuário e nas artes em geral.

Para apresentar os variados aspectos dessa tradição a Federação das Entidades Árabes Americanas iniciou nesta segunda-feira a Primeira Semana Árabe Fearab Brasil.

Com apoio da Fearab América, os eventos serão realizados até o sábado dia 27 de setembro.

Todas as atividades ocorrem na Biblioteca Nacional de Brasília e a programação conta com uma mostra de filmes árabes, debates, oficinas, apresentações de dança e a exposição "Presença Árabe no Brasil em Imagens" com 80 fotografias representativas da influência cultural desta tradição milenar em nossa arquitetura, na gastronomia e até em nosso idioma.

Aziz Jajour, presidente da Fearab Brasil e Fearab América nos conta os objetivos e detalhes do que o público vai poder conferir nesta Primeira Semana Árabe:

AJ - "O objetivo maior da Semana Árabe é dar uma abertura ao povo brasileiro de conhecer a nossa realidade, da nossa tradição, da nossa cultura, nossa origem, como contribuidores para a formação da história da humanidade nesses últimos tempos e [também] mudando um pouquinho, tirando um pouco do rótulo do que vem acontecendo, [sobre] as questões negativas que ocorrem no Oriente Médio. Nós teremos aqui palestras, painéis, apresentações de dança, da culinária e das artes, uma exposição de fotos e uma série de eventos culturais e eventos também de alto nível humanitário, já que a nossa ideia é justamente trazer à tona essa questão [humanitária]"

Há ainda painéis onde o público vai poder conferir temas que estão na ordem do dia, como os conflitos que vem ocorrendo na Síria e os ataques mais recentes à Palestina:

AJ -"Nós gostaríamos de colocar as pessoas a par do que de fato está acontecendo, trazendo pessoas que vivem essa situação, que vivem essa realidade lá e mostrando como é que as coisas tem ocorrido e até buscando dessas pessoas participantes, a maior parte brasileiros, sugestões e contribuições para que nós venhamos de alguma forma ajudar a resolver algumas questões, resolver alguns problemas. Nós somos um povo pacífico e o Brasil é um país muito respeitado, é muito ouvido. Então nós, como Fearab Brasil e hoje [também] presidindo a Fearab América, hoje nós temos uma fonte, um canal de comunicação extremamente amplo e nós gostaríamos de utilizá-lo com a ajuda do nosso povo brasileiro"

A cidade também sedia esta semana o Congresso Extraordinário Pan-Americano Árabe da Fearab América que ocorre de 25 a 27 de setembro no mesmo local. A programação também é aberta ao público:

AJ -"[Ele acontece] na Esplanada dos Ministérios, todos são convidados a estar participando dos fóruns, principalmente dos painéis e contribuindo com a gente. Nós juntos, a quatro mãos, acreditamos poder estar mudando, revolucionando, trazendo uma luz de [novas] ideias para esses líderes que estão, de alguma forma, um pouco perdidos. Nós acreditamos que podemos contribuir. Eu gostaria de convidá-los a participar, bem como todos os ouvintes, é uma honra e um prazer muito grande recebê-los aqui. Nós estamos, como eu disse, aqui na Biblioteca Nacional, sempre na parte da tarde e a nossa ideia é - utilizando a informação e buscando a paz - dar soluções a essas crises que vem ocorrendo pelo mundo. A nossa ideia é de paz. Nós gostaríamos de difundir esse sentimento e trazer ao povo brasileiro, que tem sempre nos acolhido com tanto carinho, essa mensagem"

A comunidade árabe do DF e de outras partes do país, além de representantes de instituições culturais e de investigação sobre temas ligados ao mundo árabe tem presença garantida ao longo de toda esta Primeira Semana Árabe.

Dentre os destaques, a professora Claude Fahd Hajjah, autora do livro Imigração árabe: 100 anos de reflexão participa na quinta-feira de um bate-papo no auditório da Biblioteca Nacional. O público terá acesso gratuito a todas as atividades.

Para participar, os interessados devem retirar suas cortesias no dia de cada evento, a partir do meio dia, na própria Biblioteca Nacional de Brasília, devido à limitação do espaço onde vão ocorrer as atividades.

Professores, grupos de pesquisa e escolas interessados em organizar visitas, podem entrar em contato pelo e-mail secretaria@fearab.net.


A programação e outras informações podem ser conferidas no portal: www.fearab.net ou pelo telefone (61) 3272-0008. 

Reportagem (agenda) veiculada na Rádio Cultura FM:





Primeira Semana Árabe Fearab Brasil - de 22 a 27 de setembro

Biblioteca Nacional de Brasília 

Programação Detalhada:

Segunda-feira 22 de setembro – abertura do evento
• 13h – Exibição de filme: O que resta do tempo (dirigido por Elia Suleiman)
• 15h – Painel sobre a Palestina com o professor Abdel Latif (SP)
• 18h – Coquetel de inauguração da Semana Cultural Árabe
Abertura da Exposição Presença Árabe no Brasil em Imagens – aberta durante toda a semana para visitação das 8h às 19h45 de seg a sex e 8h às 14h sab e dom.

Terça-feira 23 de setembro • 13h – Exibição de filme: O Edifício Yacoubian (dirigido por Marwan Hamed)
• 15h – Painel sobre a questão Síria com participação do Excelentíssimo Embaixador da RepublicaÁrabe da Síria.
• 16h – Apresentação do livro "Música árabe: expressividade e sutileza" pela autora Marcia Dib (Icarabe Brasil/SP)
• 17h – Apresentação de percussão oriental com Messer Di Carlo
• 18h – Reprise de filme: O Edifício Yacoubian

Quarta-feira 24 de setembro
• 13h – Exibição de filme: Welad El Am (dirigido por Sherif Arafa)
• 17h – Oficina de Derbake com Messer Di Carlo
• 18h – Reprise de filme: Welad El Am

Quinta-feira 25 de setembro – Dia da Comunidade Árabe no Distrito Federal
• 13h – Exibição de filme: Sob o céu do Líbano (dirigido por Randa Chahal Sabbag)
• 15h – Painel A Imigração Sírio-Libanesa no Brasil – com Claude Fahd Hajjar (autora do livro ImigraçãoÁrabe 100 anos de Reflexão)
• 16h – Apresentação de dança do ventre
• 17h – Oficina de Dabke com Ousseima Imad
• 18h – Reprise de filme: Sob o céu do Líbano


Sexta-feira 26 de setembro
• 13h – Exibição de filme: El Gusto (dirigido por Safinez Bousbia)
• 16h - Painel A língua árabe e as atividades do Instituto de Cultura Árabe Brasileira Icab Brasília
• 17h – Apresentação do livro "Viagem ao Iraque" pela autora Claudia Falluh Balduino (professora UnB)
• 18h Painel sobre: Dança espetáculo em “Dança Oriental” (Racks el Sharq) seguida de apresentação de performance improvisada dentro da estética Racks el Sharq com Amanda Rosa.
• 19h – Encerramento da Semana Árabe (com apresentação de dança)

Sábado 27 de setembro
• 10h – Fórum aberto ao público Fearab América: A influência da mídia na construção da imagem árabe(com entrega de certificado aos participantes - inscrições por e-mail secretaria@fearab.net)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Marina Silva, a carranca e o estado laico - por Cynara Menezes

Reblogado de: Socialista Morena


Marina Silva, a carranca e o estado laico

carranca
(A carranca do rio São Francisco no saguão do ministério da Cultura)
Não tenho medo da vitória de Marina Silva. O povo é sábio e soberano. O que ele decidir, será. Irei respeitar e torcer para que dê certo, porque o País é o mesmo. Mas não voto em Marina. Obviamente, como pessoa de esquerda, me preocupa uma possível guinada neoliberal no governo com sua chegada ao poder assessorada por economistas que seguem esta cartilha. Existe, porém, uma razão mais forte que me impede de votar nela. O projeto de Brasil de Marina não é o meu, mas não voto nela principalmente porque não sinto confiança de que governará, sendo evangélica da Assembleia de Deus, a partir da concepção de um estado laico, como promete.
Há uma história que circula no ministério da Cultura desde a época de Gilberto Gil que para mim é emblemática. Gil ganhara uma carranca de madeira, daquelas que ficam na proa dos barcos no rio São Francisco, e chamou Marina, sua colega de prédio e ministra do Meio Ambiente, para “inaugurar” a obra, no hall de entrada comum a ambos ministérios. As carrancas são utilizadas pelos pescadores do rio como adorno e com a crença de que espantam maus espíritos. Marina teria se recusado a participar da cerimônia dizendo que a obra representava o “diabo”. Teria inclusive pedido para que fosse retirada do saguão. Se foi assim que ocorreu, o episódio não abalou sua proximidade com Gil, porque ele vai votar na ex-colega para presidente.
Em outra versão da história, contada em reportagem da revista Época de maio de 2008, a própria Marina teria sido presenteada pelos prefeitos da região do rio São Francisco com a carranca e teria se negado a receber o regalo, que ficou coberto até o final da cerimônia. Na mesma reportagem, uma bióloga do ministério do Meio Ambiente conta que, com Marina Silva à frente da pasta, reuniões técnicas chegavam a ser interrompidas para a realização de cultos evangélicos. Seu assessor Pedro Ivo, um dos coordenadores da campanha de Marina atualmente, negou os cultos durante o expediente, mas admitiu que, na hora do almoço, “funcionários se juntavam para rezar nas salas de reunião” (leia aqui).
Marina não me assusta. Fundamentalistas, sim. Estamos assistindo atônitos, nos últimos anos, à forte investida deles contra as bandeiras progressistas: a descriminalização do aborto como questão de saúde pública, a defesa dos direitos dos cidadãos LGBTs, a descriminalização das drogas. No segundo turno da última eleição, em 2010, os fundamentalistas jogaram as trevas sobre nós ao acusar Dilma Rousseff de ser “abortista”, levando a campanha ao mais baixo nível da história.
Eleita Dilma, não lhe deram trégua: à base de ameaças e chantagens, conseguiram barrar um kit educativo anti-homofobia por eles batizado como “kit gay”. Depois, no Congresso, os fundamentalistas lançaram sobre a Nação a praga de projetos medievais como o da “cura gay” e o Estatuto do Nascituro, apelidado de “bolsa-estupro” por seus críticos, porque prevê o pagamento de uma pensão à mulher que, vítima de estupro, decidir não abortar.
Por que falo em “fundamentalistas” e não “evangélicos”? Porque existem evangélicos progressistas. Gente cristã de verdade, que segue na vida o preceito de amar ao próximo como a si mesmo, e não odiar, como pregam alguns destes pastores insanos. É preciso separar o joio do trigo, distinguir os fiéis destes falsos “servos do Senhor”, interessados apenas em poder e dinheiro. Tenho certeza que muitos evangélicos não os suportam e conseguem enxergar com clareza a falta de cristianismo em suas palavras.
Marina é evangélica, mas honestamente não acredito que seja fundamentalista. De qualquer maneira, a história da carranca me deixou com o pé atrás. Também me chama a atenção o fato de nunca ter visto Marina em uma só foto que seja junto a representantes das religiões de matriz africana, alvos frequentes da intolerância dos fundamentalistas, embora tenha participado de uma campanha presidencial inteira em 2010. Eduardo Campos, sim. Inclusive sancionou em 2012, quando governador, um projeto que tombou terreiros de candomblé em Pernambuco.
Nos últimos dias, tivemos a notícia de que a campanha de Marina Silva voltou atrás e apagou do seu programa de governo o trecho que defendia o casamento gay e justamente após um dos fundamentalistas mais fanáticos e repulsivos, o pastor Silas Malafaia, tê-la criticado no Twitter. Malafaia, aliás, declarou voto na candidata. Marina também ganhou a declaração de voto no segundo turno de outro pastor fundamentalista, o deputado federal Marco Feliciano, já defendido por ela como “vítima” de hostilidades por ser evangélico e não por ser o autor de frases de cunho homofóbico e racista.
Se, ameaçada por esta gente, a presidente Dilma Rousseff foi capaz de recuos em projetos importantes para a comunidade LGBT, como acreditar que, tendo eles a seu lado e professando do mesmo credo, Marina Silva não fará igual? Ou pior?
O fundamentalismo religioso e sua perseguição aos homossexuais, à esquerda e aos progressistas de maneira geral são a minha maior preocupação no Brasil hoje. Tenho falado constantemente sobre a importância de o PT aproveitar este momento histórico para se livrar deles, definitivamente até porque preferem Marina. E conquistar a simpatia dos evangélicos que pensam de maneira diferente, mais condizente com o mundo moderno do que com preceitos ultrapassados ou mal interpretados propositalmente por pastores manipuladores.
Se Marina ganhar, espero de todo coração que eu esteja errada e que ela saiba de fato diferenciar Estado de religião. Que consiga domar os fundamentalistas a seu redor. Que lute pela tolerância com os gays e os adeptos de religiões de matriz africana com tanto fervor quanto prega por tolerância em relação aos evangélicos. E que cumpra sua promessa de fazer o governo laico que eu, infelizmente, não acredito que seja capaz de fazer.
Publicado em 5 de setembro de 2014

Em BLOG

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Por que voto em Dilma - por João Brant

Compartilho aqui no blog, uma excelente análise do João Brant (publicada no Facebook) e que vai de encontro aos mesmos argumentos que tenho para votar em Dilma Roussef novamente. Obrigada João, por nos ajudar a organizar as ideias! ;)

PS: grifos meus.

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Por que voto em Dilma (post longo, advirto)

Eu teria muitos motivos para não votar em Dilma: seu governo é mais conservador do que eu gostaria, houve poucas tentativas articuladas para mudar a cultura política do país e sua interlocução com a sociedade é muito limitadaNo meu tema histórico de atuação, a comunicação, permaneceu tudo como dantes, sem nenhum esforço real para incidir sobre um sistema de mídia concentrado e conservador. Na cultura, houve retrocessos notáveis em relação ao governo Lula.

Mas a realidade é mais complexa. É preciso lembrar onde estávamos em 2002 e o que significou o ciclo inaugurado em 2003. O Brasil abandonou a rota neoliberal e reorganizou seu rumo na economia e no campo social para buscar diminuir a miséria e a pobreza no país. Fez isso, é verdade, sem romper com o capital financeiro e sem aprofundar processos de mudanças estruturais necessários para avançar mais. Mas não há dúvidas de que PT e PSDB fizeram opções muito distintas, que colocaram o Brasil em rumos opostos nos governos Lula e FHC.

O governo Dilma manteve as bases do governo Lula. No essencial, naquilo que tem capacidade de influir em escala na vida dos trabalhadores, houve poucas mudanças significativas. A conjuntura internacional mudou, e o governo teve méritos e deméritos no processo de adaptação. Conseguiu retardar e mitigar os efeitos da crise de 2008, mas seguiu apostando numa política de exportação de commodities que, aliada à falta de uma política industrial, tem efeitos negativos para o país em médio e longo prazo. De toda forma, diminuímos a desigualdade, mantivemos o desemprego em níveis bem baixos e 36 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.

Explico porque, pra mim, Marina Silva e Luciana Genro não são opções. Em relação à Marina, vejo três problemas centrais. O primeiro é que ela opta por um programa econômico claramente liberal, vinculado à agenda do setor financeiro, que aponta na direção contrária do caminho de enfrentamento às desigualdades que tortuosamente estamos seguindo. Essa opção é estrutural, e com ela vêm todo um pacote cujos efeitos são sentidos diretamente pelos trabalhadores. Não que o programa de Dilma não assuma parte da agenda liberal, mas é só ver a resistência do setor financeiro à sua candidatura para ver que ela contraria interesses poderosos. Além disso, essa opção de Marina tende a neutralizar a oportunidade real de avanços que dependem de outra estrutura econômica. Seu programa tem vários pontos progressistas, alguns mais do que os do programa de Dilma, mas o papel aceita qualquer combinação. No mundo real, não vejo condições de a maior parte da agenda progressista ser mantida com essas bases.

O segundo problema é que a maneira como ela monta o discurso de mudanças na política é ilusória e, a meu ver, despolitizante. Ao dizer que vai governar com os melhores do PSDB e os melhores do PT, ela propõe ao Brasil ignorar que estes são dois projetos opostos para o Brasil, inconciliáveis se mantidas suas características essenciais. Ao mesmo tempo, ao se fixar no bordão da ‘nova política’, Marina transforma as necessárias mudanças na cultura política em um ato de vontade, que pula toda a parte de dar respostas concretas a problemas duros e reais. Não gosto da lógica de governabilidade assumida pelo PT e não acho que ela seja a única maneira de se governar, mas acho que sua superação só pode acontecer em um processo complexo de enfrentamento a essa lógica, que depende de uma articulação social potente. Que nova política é essa a que só teremos acesso depois das eleições? Por que ela depende de se estar no governo para ser praticada? Como acreditar em uma nova política que é mais personalista (baseia-se em quadros) e individualista e menos coletiva? No que Heraclito Fortes, Bornhausen e Roberto Freire se diferenciam de Renan, Maluf e Crivella?

O terceiro problema é o mais explorado nas redes, e tem a ver com um conservadorismo comportamental da candidata. Confesso que esse ponto nem é pra mim o principal, não porque não o considere importante, mas porque não me parece que Dilma e seu governo tenham feito (ou farão) avançar essa agenda de qualquer forma. São necessários casos emblemáticos e comoções gerais com muita luta social para que haja qualquer chance de mudança.

Mas frente a esse cenário por que não votar no PSOL? A opção feita pelo PSOL nos seus 10 anos de existência foi se fixar como um partido que não busca dialogar com um número significativo de brasileiros. Faz um discurso voltado para o eleitorado de extrema esquerda, que não alcança 2% da população, e não se propõe a construir um discurso e um programa que o aproxime das massas. Enquanto parte do petismo exagera na interpretação sobre a correlação de forças, o PSOL parece ignorar esta avaliação.

É preciso compreender como pensa o país. Mesmo sendo considerado um moderado por alguns amigos, eu estou provavelmente nos 2% mais à esquerda do Brasil. Não por ser extremamente radical, mas porque o povo, mesmo com valores de esquerda, é moderado. Essa opção de enclausuramento do partido é aceitável na atuação parlamentar, onde em geral o partido vai bem e cumpre um papel fundamental (vide Ivan Valente e Jean Wyllis), mas é insustentável no âmbito da disputa pelo Poder Executivo.

Ajuda a explicar a situação o fato de parte significativa do PSOL entender que o principal adversário a ser combatido é o PT. Psicanaliticamente dá pra aceitar, politicamente não. 

Frente a esse quadro, acho que a opção por Dilma significa uma opção viável pelos mais pobres. Significa também ir por um caminho em que algumas mudanças estruturais podem vir a ser disputadas (embora o governo tenha se fixado em bases nas quais há pouco espaço para elas). E significa deixar longe do governo o PSDB, que representa a agenda orgânica do setor financeiro. Parecem-me motivos suficientes.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Um relato sobre a Segurança Pública no DF

Demorei a me decidir por escrever sobre isso. Estamos em período eleitoral e muitas confusões pra cima de moi podem ocorrer por causa de uma simples "blogada". Mas a questão é que acredito que não podemos fugir desse debate.

Meu filho foi assaltado hoje. Está tudo bem com ele. Foi um grande susto apenas. Mas não é sobre isso, exatamente, que quero falar. É sobre o inegável desamparo que paira sobre a juventude de Brasília.

Apenas para contextualizar, explico que ele se desloca diariamente por um quadrilátero que compreende a escola e as aulas de vôlei e de inglês, todos localizados em pontos muito próximos um do outro e próximos também do meu local de trabalho.

Um homem o abordou hoje perto da quadra poliesportiva das 106/107 sul. Levou o celular e algum dinheiro (trocados que ele tinha no bolso e na carteira). Logo depois, meu filho se dirigiu ao comércio local, pediu ajuda a uma moça na lavanderia (em que costumo ir) e me ligou (aos prantos, lógico).

Assim que recebi a ligação, liguei para o 190 avisando que ele tinha acabado de ser assaltado, se não poderiam enviar uma viatura, verificar se o cara estava por perto. Me disseram que "estariam providenciando" naquele momento. Cheguei lá e nada, ele estava sozinho. Uma dupla de policiais - os chamados "Cosme&Damião" - passava um pouco mais à frente. Corremos para alcançá-los e começamos a relatar o fato, comentei que havia feito o registro pelo 190. Eles iam anotando as características do sujeito, pareciam enviar os dados para algum whatsapp da polícia (isso não ficou muito claro) e encerraram com um "fica tranquila, vamos resolver isso". Pensei que iniciariam alguma busca, mas eles saíram calmamente batendo papo, continuando a ronda que interrompemos. Decidi ligar novamente para o 190 e ver se a viatura estava a caminho. Para minha surpresa, sequer havia registro da minha chamada anterior. Depois de passar todos os dados novamente (nome, telefone, local etc) o atendente simplesmente me disse que não havia "nada no sistema". Pedi a ele o número do celular 24h que o Batalhão Escolar divulga para recebimento de ocorrências e ele disse que não tinha(!). Agradeci e, antes de desligar, pedi que registrasse meu descontentamento com o serviço, no que ele prontamente respondeu: "para isso, a senhora liga na ouvidoria". Liguei em seguida para uma colega que, por coincidência, há poucas semanas fez uma matéria sobre o altíssimo índice de violência que vem ocorrendo com estudantes nas imediações das escolas do DF e ela me passou o número. Avisei ao atendente que estaria na porta da escola, onde já tinha comunicado à direção sobre o assalto. Esta, por sinal, me relatou que pede TODOS OS DIAS pelo reforço do Batalhão Escolar, ao menos no horário de pico (nas saídas), mas que eles alegam que não há efetivo para isso.

Levou apenas 5 minutos para a viatura do Batalhão Escolar chegar. Esta foi a boa surpresa. A ruim é que eles nos disseram que há somente uma única viatura para toda a região - sim, TODO O PLANO PILOTO - e que, portanto, aquela dupla e aquele carro eram os responsáveis por toda a área (Asas Sul e Norte, Lagos Sul e Norte, etc). Nesse momento, me veio à cabeça que nas outras regiões administrativas (mais periféricas e afastadas do "centro") a situação deve ser bem pior. Senti um aperto no coração pelas crianças e adolescentes que vivem e estudam nessas regiões.

Comentei com eles que fiquei confusa sobre a comunicação entre as polícias já que além do 190 não ter registrado minha chamada, o fato não tinha sido passado nem à dupla que fazia ronda naquela região nem à eles, do Batalhão Escolar. A resposta do policial, em detalhes sórdidos, não poderei escrever aqui. Tanto ele quanto o parceiro, me pareceram (e foram os únicos até ali) realmente interessados na ocorrência e para esse tipo de informação (saber QUEM ele é) sei que a "inteligência" do Estado (falo de todos) funciona muito bem. Sendo assim, não quero prejudicá-lo em um momento de "desabafo" mas, em resumo, eles não tem quaisquer condições (físicas, materiais e outras) de atender às crianças e adolescentes em situações de violência por vários motivos. Mas eles não precisariam me dizer, os fatos gritavam o óbvio.

Primeiramente, me pareceu que não existe uma "comunicação integrada" de fato no sistema de segurança pública de Brasília. Sou leiga nesse assunto, então posso estar falando uma grande bobagem, mas me parece lógico que, ligando para o 190 e informando um assalto naquela área, uma viatura talvez nem fosse necessária, já que uma dupla 'Cosme&Damião' estava a menos de 100 metros de onde meu filho estava. Ou seja, a escala das rondas não deveria ser de conhecimento dos que são responsáveis por mobilizar e deslocar efetivos pela cidade? Houvesse uma forma de comunicação mais efetiva, a dupla teria chegado até ele na metade do tempo que levei para chegar (em meio ao hush do almoço). Talvez até, com sorte e alguma disposição, teriam a chance de encontrar o sujeito. Sinceramente, não sei qual o índice que se usa para determinar até onde se deve ir ou não nestes casos, em termos de alocação de recursos públicos para uma ocorrência, mas o atendimento do 190 me pareceu quase dizer: "ah, foi só um celular e ele está bem? ok, nada a fazer, próximo!". Então, se essa não é uma atribuição deles, pelo crime em si que foi "pequeno" diante de tantas atrocidades que ocorrem por aí, que demandassem ao Batalhão Escolar para que fizessem ao menos um relatório sobre o fato, para estatísticas e estudos que levam a.... estratégias de segurança. Ou não?

Para deixar o caso ainda mais bizarro, o assalto ocorreu há 50 metros de um "Centro Integrado de Proteção à Criança e ao Adolescente". Vejam aí no Google, entrequadras sul 106/107. Há uma quadra poliesportiva (onde pessoas jogam bola, caminham, mas claro, ninguém percebeu o assalto ou não quiseram se envolver) e do outro lado da rua, um posto de gasolina. Colado nele, esse centro, que eu pensei - e os PM´s do Batalhão também pensaram! - ser uma delegacia da mulher (PS: eles não souberam me indicar a delegacia mais próxima para fazer a ocorrência, acreditem se quiser). Passando de carro para que meu filho mostrasse o local exato do ocorrido, o nome no letreiro me chamou a atenção e parei para verificar. Os cones na frente já indicam que o local está desativado. Encontrei um funcionário que me disse ser agente do antigo Caje e que me informou que o local estava em reformas e, à pedido da comunidade, ele estava ali para evitar que o prédio público (quase abandonado) fosse ocupado por usuários de crack. Segundo ele, não há previsão para que o local passe a funcionar, afinal, estamos em "período eleitoral". Pensei, se ainda não há estrutura alguma ali, funcionários, equipamentos, viaturas, nada, se não há atendimento, para quê exatamente há uma placa imensa dizendo que ali se realiza esta atividade? Não seria mais lógico, colocar uma placa informando sobre um serviço público somente quando este de fato estivesse sendo ofertado?

Volto a dizer que estou narrando fatos e o meu olhar como mãe e cidadã sobre esses acontecimentos. Como jornalista, não apurei ainda se o que vi e ouvi dos vários agentes de segurança com quem falei (por telefone e pessoalmente) refletem a realidade para além do que eu estava constatando. Até por que pautas sobre a nossa nada mole vida doméstica são sempre complicadas. Mas alguns questionamentos me vieram à mente. Primeiro, me pareceu haver um grau de vulnerabilidade sobre as crianças e adolescentes do DF bem maior do que supomos. Se eu fosse a vítima? Se eu fosse uma adolescente? Se minha família, por algum motivo, não pudesse se deslocar rapidamente até onde eu estava? Se eu tivesse acabado de sofrer um abuso, o atendimento teria sido diferente? Registre-se aqui que meu filho sequer cogitou ligar para o 190, mas talvez instintivamente eles saibam que isso não vai ajudar.

Tenho os pés no chão. Sou carioca e meu marido é paulistano, temos completa clareza do quanto nossas cidades de origem são infinitamente mais violentas do que Brasília. Em São Paulo e no Rio, assaltos cinematográficos à mão armada são (triste) rotina para a população. No DF, sabemos que a situação de violência urbana caminha para esse quadro mesmo ainda não sendo a mesma. E isso é percebido no dia-a-dia, nos vários relatos de assaltos em ônibus, roubos a mão armada, sequestros relâmpagos. São muitas as razões para que uma metrópole chegue a esse quadro, inclusive o próprio crescimento das cidades em torno dela. E nem quero me aprofundar em análises sobre o alarmante relatório do CNJ sobre a população carcerária no BrasilA Segurança Pública é um tema espinhoso mesmo, com muitas variáveis, começando naquela recorrente (e certeira) tecla em todos os discursos, a tal da educação.

O fato é que hoje eu tive uma estranha sensação, a de que os agentes de segurança podem estar - voluntariamente ou não - nos enviando alguns recados que sim, pressupõem muitas abordagens, até mesmo em razão do momento político que estamos vivendo. Mas exponho aqui esse relato, na tentativa de que a gente possa, como sociedade, pensar sobre essas muitas possibilidades e sobre a parte que nos cabe nesse latifúndio.


PS: vale a pena ouvir a reportagem citada, com outros relatos e dicas de segurança para os estudantes.

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Juliana Medeiros é jornalista.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

ENTREVISTA COM ELIAS JABOUR SOBRE O CONFLITO EM GAZA

* Por Juliana Medeiros


Entrevista com o geógrafo Elias Jabour, Assessor do Senado Federal, Doutor e Mestre em Geografia Humana pela USP, e um dos apoiadores dos atos que vem sendo realizados em prol da causa palestina. A transcrição da entrevista segue abaixo.



Crédito da foto: Fabiane Guimarães/FB


Movimentos Sociais e Entidades que defendem os direitos humanos realizaram na noite desta quarta-feira, em Brasília, uma Vigília Pelas Crianças de Gaza em frente ao Museu da República.

Com bandeiras, velas, e faixas de solidariedade à Palestina, os representantes do movimento também projetaram imagens alusivas à causa Palestina nas paredes do Museu.

Eu converso agora com Elias Jabour, Assessor do Senado Federal, Doutor e Mestre em Geografia Humana pela USP e um dos apoiadores dos atos que vem sendo realizados em prol da causa palestina.

RC – Elias, o governo israelense acusa o movimento islamita Hamas, pelo sequestro de três jovens cujos corpos foram encontrados em 30 de junho, com marcas de tiros. No dia seguinte, em 1º de julho, um adolescente palestino foi sequestrado e morto em Jerusalém Oriental. A perícia apontou que ele foi queimado vivo. Israel acabou prendendo, mais tarde, alguns judeus extremistas que confessaram o assassinato do garoto. Isso acabou gerando uma onda de revolta em Gaza e o Hamas iniciou então os lançamentos de foguetes (de fabricação caseira) contra Tel Aviv que respondeu, e responde ainda, duramente contra Gaza. Bom, esse é o resumo que vem sendo amplamente noticiado sobre o atual conflito na região. Até que ponto, Elias, a gente pode dizer que essa é uma leitura superficial da situação?

Primeiro eu acho muito estranho o Hamas se envolver nesse tipo de crime, sequestrar três jovens judeus e matá-los. Acho que essa é a primeira questão a ser levantada. Será que isso é verdade mesmo? Será que foi o Hamas que fez isso? Por que, historicamente, se você pegar o processo de luta que envolve o Hamas e outras organizações políticas daquela região, esse tipo de atitude não é “a cara” deles. É algo que tenho muitas dúvidas, se foi ele [o Hamas]. E é evidente que algum nível de resposta viria do lado israelense. Então, pegar uma criança e queimar viva e enterrá-la, eu acho que não é algo fora da realidade para quem já vem cometendo certo nível de atrocidades nos últimos 60 anos. A questão da superficialidade que é interessante. As pessoas e os meios que são obrigados a passar informação para o maior número de pessoas, elas não levam informação. Elas passam [somente] um lado da história. Existe um lado sendo atacado, vamos dizer assim, “como resposta a ataques de grupos radicais islâmicos situados na Faixa de Gaza”. Ou seja, para por aí a análise. E é evidente que chega até certo nível de saturação, em que as coisas vão ficando tão escancaradas que a própria “mídia hegemônica” pede para dar um basta naquilo. Porque já está pegando meio mal mesmo, não é? Então existe sim, um alto grau de superficialidade na análise das questões que envolvem o Oriente Médio, principalmente vindo da grande mídia. Ou seja, [você] liga no [canal] Globo News, ou nesses noticiários de massa, liga a TV e você não vê os dois lados da história, do por que as coisas chegaram a esse ponto. E o principal, não se fala a história daquele processo. E dificilmente você vê a imagem de um mapa da Palestina antes e depois de 1948, depois de 1967, depois de 1973, isso não aparece na televisão. E, por fim, o que eu acho mais interessante é: qualquer país do mundo que fizer um décimo do que Israel está fazendo com a Palestina, estará sujeito a graves sanções econômicas. Mas até agora eu não ouvi uma voz dissonante, dentro ou fora da ONU, colocando a possibilidade de Israel vir a sofrer sanções econômicas. Acho que essa é uma questão também a ser respondida.

RC – Como bem mostram correspondentes em imagens televisivas mundo afora, a maioria esmagadora dos foguetes de fabricação caseira que são lançados pelo Hamas não chegam a atingir Israel, quase sempre são interceptados no ar por sistemas antimísseis. Na última terça-feira, Israel registrou sua primeira morte - um homem atingido por um morteiro. Já em Gaza a situação é bem pior, são dezenas de mortos todos os dias. Dentre eles, muitas crianças. A ONU inclusive vem advertindo, desde o início do conflito, que a maioria das vítimas palestinas é civil. Você entende que existe aí certo “silêncio” da comunidade internacional sobre essa situação na região?

Tirando alguns países, vamos dizer assim, do [chamado] “eixo do mal”, como a Venezuela, o silêncio é quase que total e absoluto. Esse é o fato concreto. Imagine você – vamos fazer um exercício aqui –se a Coreia do Norte for atacada pela Coreia do Sul e disparar um míssil e morrerem quinze crianças coreanas do sul. Isso seria um escândalo internacional, não seria? Ou seja, veja se existe essa mesma medida para o caso da Palestina. Interessante que ontem, Israel começou a lançar mísseis contra o litoral de Gaza e matou três ou quatro crianças que estavam se divertindo na praia...

RC – É, foram quatro crianças de uma mesma família e o curioso é que foi há 200 metros de um hotel onde jornalistas de todo o mundo estão hospedados.

Ou seja, qual é a repulsa internacional a esse ato? Existe algum comentarista de assuntos internacionais na grande imprensa capaz de colocar o dedo na ferida dessa questão? O que é Gaza hoje? Gaza é um favelão. Sufocado, não tem água, está sem energia elétrica, o sistema de esgoto entrou em colapso e a ONU tem que pedir permissão a Israel para fazer um cessar-fogo de cinco horas [e entrar] em Gaza. É uma coisa horrível, eu acho muito horrível o que está acontecendo.

RC – A mídia, em geral, vem tentando atribuir todas essas mortes e o acirramento do conflito a algum tipo de “má vontade” dos palestinos em dialogar, como você interpreta isso Elias?

Olha, é o seguinte: você tem uma casa, você tem uma família, aí invadem a sua casa e, amiúde te expulsarem de casa, ainda estupram sua mulher e sua filha na sua frente. Como é [possível] ter algum nível de diálogo em pé de igualdade com quem faz isso? E não é exagero, é o que acontece na Palestina. Os Palestinos são o povo mais oprimido do mundo. Então, ao invés de se falar que os palestinos resistem ao diálogo, tem que se perguntar por que eles resistem ao diálogo, se é que resistem não é? E quais os temas que Israel vai colocar para continuar o diálogo, para sentar-se à mesa de negociação? Por que é muito fácil para Israel “propor” o diálogo, enquanto eles continuam colonizando partes árabes da Palestina.

RC – Houve agora um anúncio de um possível acordo, uma suposta tentativa do Egito de mediar um cessar-fogo. O gabinete de segurança de Israel declarou que havia aceitado esse acordo, mas uma nota distribuída pelo Hamas nega que sequer tenha sido apresentado um acordo ao movimento. O Hamas é uma organização sunita que engloba um partido e também um braço armado. E é também o mais importante movimento islâmico da Palestina atualmente, e que ganhou as eleições parlamentares em janeiro de 2006. E um dado interessante é que Israel costumava alegar problemas em negociar com os palestinos enquanto o Hamas não fosse parte das negociações [sendo ele tão influente na região], mas logo depois que o Hamas foi eleito, Israel passou a dizer que não negocia com o Hamas. Até porque [o Hamas] é considerada uma organização terrorista por vários países. Mas, junto à população Palestina, Elias, qual a legitimidade que o Hamas tem atualmente?

Total legitimidade. Eu posso falar com tranquilidade que tem muita legitimidade. Porque a Palestina não tem um Estado capaz de prover serviços médicos, de saúde, de pronto-socorro, de previdência, de educação, escolas, etc. E quem faz muito isso, é o serviço social bancado pelo Hamas. Esse é um fato objetivo. A Palestina hoje vive de ajuda internacional. Até por que, o que ela poderia exportar, ela não exporta. Por exemplo, óleo de oliva. Tanto é que a campanha internacional que existe na Palestina há muito tempo (eu estive lá em 2011) é: “Give me a choice”. Ou seja, “me dê uma chance”. A Palestina não consegue fazer comércio com ninguém, não tem nem aeroporto. Então como que um Estado desse pode sobreviver e manter serviços públicos básicos para a população dessa forma? Não tem como. Então, a legitimidade do Hamas vem por conta do papel de assistência social que eles fazem ali na região. Todas as forças políticas da região se legitimam através da história do próprio movimento e pela capacidade desse movimento em prover serviços públicos para a população. Ou em amenizar um pouco o sofrimento daquela população. O Hamas é sim legitimado naquele lugar, tanto é que ganhou as eleições. Então quando Israel “não quer negociar com o Hamas”, não é para o Hamas que ele está dizendo isso, [Israel] não quer negociar é com a Palestina.

RC – Os movimentos e entidades de luta pelos direitos humanos estão realizando aqui em Brasília uma serie de atos em prol da Causa Palestina, especialmente [agora] nessa situação conflituosa ali na região. Você tem como informar quais são as próximas agendas desse movimento?

Olha, houve dois atos que eu achei muito interessantes. O primeiro deles foi a entrega de um documento do movimento para o representante da ONU aqui no Brasil. E foi um ato muito amplo, muito aberto, em que o embaixador ouviu nossas opiniões, também falou um pouco em nome da ONU. O ato de ontem à noite teve um caráter mais de mobilização e que mexesse com a emoção. Foi um ato que mostrou imagens de crianças palestinas, em que acendemos velas, em que mostramos uma faixa [com os dizeres]: “Abaixo o apartheid de Israel contra a Palestina”. E a partir desse ato de ontem, toda uma agenda tem sido elaborada. Mas ainda hoje vai haver uma reunião, às 17h30 e vai ser elaborada uma agenda que vai ser passada para vocês com certeza.

RC – Nós conversamos com Elias Jabour que é doutor e mestre em Geografia Humana pela USP, Assessor do Senado Federal e apoiador dos atos que vem sendo realizados em prol da Causa Palestina e pelo cessar-fogo na Faixa de Gaza. Elias, muito obrigada por essas informações que você nos deu.

A agência da ONU para refugiados palestinos alertou que centenas de milhares de palestinos estão sem acesso à água após os ataques que atingem também as redes de abastecimento.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que “não tem escolha” a não ser intensificar a campanha militar contra a Faixa de Gaza. Israel anunciou também a mobilização de milhares de soldados na fronteira com Gaza iniciando o que seria uma ofensiva terrestre que pode piorar ainda mais a situação na região.


* Juliana Medeiros é repórter da Rádio Cultura FM 100,9 de Brasília e editora do programa Cultura Notícias Internacional, que vai ao ar de 2ª a 6ª feira às 17h.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Copa, BRICS e o revival do complexo de vira-latas

Esse texto está em um comentário meu no facebook, mas vou postar aqui (adaptado) por que não resisto em falar sobre tudo que tenho visto/lido/ouvido. A mídia (cada vez mais) influencia tanto mentes e corações que consegue mudar até a história da humanidade! Afeta nossa memória e mesmo o discernimento de algumas pessoas. Mas vamos lá:

Imagine que você tem uma família que vive por gerações e gerações em um lugar. Sua casa é bela, exuberante, tem múltiplas riquezas naturais e você convive com tudo isso de forma harmoniosa. Um pouco mais distante, vive um vizinho cuja família tem milênios de existência a mais do que a sua, tendo alcançado já alguma riqueza e desenvolvimento. Um belo dia ele "descobre" vocês por ali, ainda vivendo da terra e do que a natureza pode lhes dar. Enfim ele aparece e num primeiro momento se finge de amigo, lhe dá presentinhos, mas depois lhe rouba, estupra suas filhas, assassina os resistentes, retira na marra seus recursos naturais, a ponto de extinguir alguns, saqueia seus minérios, extermina árvores, fontes de alimento, sua beleza, sua força, e ainda forma em sua terra uma colônia onde, por séculos, irá explorar o trabalho de membros de sua família e de outros "selvagens" que ele trouxe de outros lugares mais pobres, para ajudar no trabalho de torná-lo ainda mais rico e poderoso.

Com tudo que lhe roubou, eles (e outros vizinhos ricos, que chegaram para ampliar o saque que o primeiro iniciou) investem em suas belas casas, seus templos de poder e na estrutura e formação de suas famílias. E você que ficou com a sua em frangalhos, segue tentando se reerguer. Eventualmente tentando preservar alguma altivez para seguir em frente, outras vezes tentando dialogar, se integrar, perdoando e esquecendo as dores do passado. Mas o tempo é cruel, corre contra você e é difícil, quase impossível, alcançar-lhes o mesmo patamar.

Você consegue se libertar depois de séculos de luta por direitos, mas ainda tem muito o que recuperar do prejuízo. Transformam em produto e consomem sua alegria, mas inserem à força valores (culturais e religiosos) que procuram desqualificar suas raízes e tradições. E você ainda tem que passar todo esse tempo de labuta ouvindo piadinhas, de que você "não vale nada", é inferior, mais feio, mais burro, mais preguiçoso. Até elaboram teses na tentativa de provar que você é geneticamente destinado ao insucesso. Mas você segue tentando preservar sua dignidade, e tentando transmitir aos seus a importância de seguir em frente e, mais ainda, a importância de buscar a felicidade. 

O tempo passa, não há mais conflitos extremos entre vocês. Seu vizinho "rico" então, se achando o detentor "natural" do direito de se sobrepor a tudo e a todos, se junta com outros parceiros "predestinados" e inventa uma guerra com outras vizinhanças e culturas e simplesmente mata praticamente TODOS, rouba deles TODA a riqueza, móveis e imóveis, de roupas a joias, mata-lhe os filhos reconfigurando gerações futuras, não respeitando absolutamente nada, nem mesmo a Carta de Direitos. Mas, felizmente, acabam vencidos por outras vizinhanças (e até uma ajudinha sua) que, juntas, colocam um ponto final nisso e toda essa comunidade volta, aos poucos, a viver novamente com alguma harmonia. Ainda assim, jamais tirariam deles aquilo que roubaram, não haverá julgamento ou compensação. A liga dos "vizinhos ricos unidos", fará sempre aquela cara blasé de quem tinha o "direito" de fazer o que fizeram e continuarão a multiplicar suas riquezas, sem remorso algum do sangue que derramaram. Afinal, estavam apenas "expandindo seu território", são "conquistadores", merecem até uma estátua no centro da sua maior cidade para que seus filhos aprendam que "corajosos" são eles, que desbravaram essa "terra selvagem". E você lá, correndo, arfando, suando, estudando, investindo em seus filhos, sonhando, tentando "chegar lá" enquanto lhe xingam, ridicularizam, o chamam de pobre, subdesenvolvido.

Os tais vizinhos privilegiados se reorganizam em uma grande força militar que ameaça todo o resto que não faz parte do mesmo "clube dos ricos". Com isso, estabelecem políticas de "ajuda humanitária" que na verdade são uma fachada para que continuem (até hoje) roubando, matando, expropriando outros vizinhos mais pobres (afinal, tanta terra ainda a explorar), controlando inclusive a COMUNICAÇÃO, que é para convencer todo mundo de que eles são "no fundo" tão bonzinhos quanto o 'Meu Malvado Favorito', na verdade eles são a "força do bem contra o mal" e fazem isso para "salvar o mundo dos terroristas". Tornam-se então nossos heróis, vultos que passam a ser doutrinados em nossas escolas (enquanto aqueles que lutaram por liberdade e direitos são completamente apagados da nossa memória). A tal ponto que qualquer crítica aos "métodos" passa a ser um tabu, coisa de "radicais". Seus filhos (e até você) começam a acreditar que precisam mesmo é agradecer a toda essa "proteção" que eles lhe dão sem cobrar quaaaase nada (só uma ou outra relação comercial injusta, mas isso é próprio do "mercado", da "livre concorrência", faz parte).

E mesmo depois de ter sido roubado e humilhado por séculos, você se aproxima do 5º lugar em riqueza e desenvolvimento em relação a todos os outros vizinhos, na verdade você até que está em situação bacana agora, seus filhos viajam e estudam nas terras "rycas" e eles, que agora estão um tantinho quebrados, ficam felizes vendo vocês chegarem lá e gastarem a rodo.

E você vai além, se une àqueles que estão em um mesmo estágio que você, e buscam estratégias para se ajudarem mutuamente e encontrarem maneiras de ajudar outros povos, com condições mais justas, mais humanas. Mas, novamente, sua própria mídia tenta provar o quanto todos vocês aí, pobres, são ridículos, tentando mudar as regras do jogo. Te espionam descaradamente, conspiram e, desta vez, não para te roubar, mas para não deixar que você se aproxime. A palavra agora é competição, uma das benesses da "democracia".

Nesse meio tempo, seus filhos, no esporte, conquistam CINCO vezes um campeonato. Nenhum dos outros, nem mesmo os mais ricos conseguem o mesmo feito. Mas um dia vocês organizam um mega campeonato na sua casa e seus filhos perdem feio, vexame total. "Logo você que era o melhor nisso, nem isso você faz direito seu mané?"... E você embarca novamente na onda derrotista. 

Até que você pára e pensa que tem duas opções: entender que é só um esporte e tocar em frente o trabalho de continuar crescendo e corrigir as falhas (inclusive aprendendo com o que os campeões fizeram de positivo), OU se sentir um lixo, vender isso todos os dias na sua própria mídia como uma hipnose coletiva, convencendo cada criança de que somos "a cara do fracasso", e reconhecer que eles sim, é que "sempre foram melhores em tudo", nós é que somos "atrasados mesmo".

A questão, meus caros, é que para vencer esse "atraso" devemos tirar a máscara, mas não é a "de dormir", por que aqui as pessoas sempre trabalharam muito, não tiveram muito tempo para dormir, e até "ergueram edifícios onde hoje não podem entrar", como diz o poeta. Sobrevivemos à exploração, à colônia, à escravidão, estamos buscando a integração com vizinhos mais próximos, estamos buscando aprender com cada cultura, preservando o que temos de melhor. Perdoamos, nos relacionamos com respeito até mesmo com aqueles que um dia nos exploraram, somos parceiros, e mais, temos condições de ajudar outros mais pobres (ajudar e não fazer proselitismo com a dor alheia). Mesmo assim, até hoje lutamos contra mentiras que convencem muitos dos outros (e dos nossos) de que não somos nada. Foi preciso realizar um mega evento, atraindo 600 mil estrangeiros de uma só vez, e vê-los encantados com cada traço de nossa cultura, querendo "exportar" para seus países coisas tão singelas quanto um simples ABRAÇO, para que as pessoas - até brasileiros! - passassem a ver que "até que somos legais".

A máscara que precisamos tirar minha gente, é realmente essa do "complexo de vira-latas", como sacramentou Nelson Rodrigues em 1950. Por que se a gente parar para prestar atenção (e me perdoem a expressão, mas não encontro outra melhor), nós somos mesmo é foda pra caralho.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

4º Encontro Nacional de Blogueir@s e Ativistas Digitais

Do Barão de Itararé





Nos dias 16, 17 e 18 de maio, em São Paulo, são aguardados 500 ativistas digitais de todo o país. A organização do encontro disponibilizará hospedagem para os 200 primeiros inscritos de fora da capital paulista e alimentação para os 500 participantes. O evento acontece no Hotel Braston (Rua Martins Fontes, 330 - Centro).
Na sexta-feira, 16 de maio, o Encontro Nacional promoverá um Seminário Internacional que se propõe a dar continuidade aos debates do 1º Encontro Mundial de Blogueiros realizado em outubro de 2011 em Foz do Iguaçu (PR). Seis conferencistas internacionais discutirão mídia, poder e América Latina, seguido de um debate sobre a luta pela democratização da mídia no Brasil.
No sábado, 17 de maio, a proposta é retomar a experiência do primeiro encontro nacional realizado em 2010 por meio das desconferêncas. As atividades iniciam com uma discussão sobre a juventude e a força das novas mídias e será seguido das desconferências, em que serão formados grupos de debates. Nesses grupos, o debate será iniciado por ativistas convidados e todos os participantes terão vez e voz para relatar suas experiências e participar dos debates. Após as desconferências, os grupos voltam a se reunir para discutir a mídia e as eleições de 2014 e, na sequência, haverá uma festa de confraternização.
No domingo, 18 de maio, os debates serão sobre a Carta de São Paulo e ações do movimento de blogueir@s e ativistas digitais.
As inscrições já estão abertas na página blogprog.com.br/inscricoes. As taxas de inscrição são R$ 50 (cinquenta reais) para os participantes em geral e R$ 20 (vinte reais) para estudantes, sendo necessário o envio do comprovante de matrícula na instituição indicada para o email inscricoes@blogprog.com.br.
Data: 16, 17 e 18 de maio de 2014 
Local: Hotel Braston (Rua Martins Fontes, 330 - Centro - São Paulo/SP)
Inscrição: blogprog.com.br/inscricoes 
Taxa de inscrição: 50 reais para o público em geral e 20 reais para estudantes
***

PROGRAMAÇÃO

*A confirmar
16 de maio, sexta-feira
09 horas — Abertura
10 horas — Debate: Mídia, poder e contrapoder
  • Ignácio Ramonet – fundador do jornal Le Monde Diplomatique (França); 
  • Pascual Serrano – criador do sítio Rebelion (Espanha); 
  • Andrés Conteris – Integrante do movimento Democracy Now (Estados Unidos); 
  • Dênis de Moraes – professor da Universidade Federal Fluminense. 
14 horas — A mídia na América Latina
  • Osvaldo Leon – integrante da Agência Latina Americana de Informação (Alai-Equador) 
  • Damian Loreti – professor (Argentina)*;
  • Iroel Sánchez – blogueiro cubano; 
  • Emir Sader – sociólogo e cientista político.
17 horas — A luta pela democratização da mídia no Brasil
  • Luiza Erundina – coordenadora da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão (Frentecom)*;
  • Rosane Bertoti – coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC);
  • Laurindo Lalo Leal Filho – professor da USP e ex-ouvidor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC);
  • Luciana Santos - vice-presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e deputada federal por Pernambuco.
17 de maio, sábado
9 horas — A juventude e a força das novas mídias
  • Pablo Capilé – Fora do Eixo;
  • Renato Rovai – revista Fórum;
  • Jeferson Monteiro – Dilma Bolada*;
  • PC Siqueira – MTV*
  • Beá Tibiriçá – Coletivo Digital
14 horas — Troca de experiências sobre a blogosfera e o ciberativismo;
18 horas — A mídia e as eleições de 2014
  • Lula*
19 horas — Festa de confraternização.
18 de maio, domingo
10 horas — Plano de ação do movimento nacional de blogueir@s;
  • Definição do local do V Encontro Nacional, em 2016;
  • Aprovação da Carta de São Paulo;
  • Eleição da nova comissão nacional organizadora.
Convidados para iniciar os debates das desconferências: 
Marco Aurélio Weissheimer (RS);
Esmael Morais (PR);
Zé de Abreu (RJ)*;
Tarso Cabral (PR);
Leonardo Sakamoto (SP);
Cynara Menezes (DF);
Miguel do Rosário (RJ);
Gilberto Maringoni (SP);
Fernando Brito (RJ)*;
Fábio Malini (ES);
Lola Aronovich (CE);
Daniel Pearl (CE);
Altino Machado (AC);
Diógenes "Jimmy" Brandão (PA);
Altino Machado (AC);
Marcos Vinicius (GO)*;
Jean Wyllys (RJ)*;
Túlio Viana (MG);
Lucio Flávio Pinto (PA);
Claudio Nunes (SE)*;
Vito Giannotti (RJ);
Oldack Miranda (BA)*;
Douglas Belchior (SP);
Edmilson Costa (SP);
Daniel Menezes (RN)*;
Deodato Ramalho (CE);
Beto Mafra (MG);
Cido Araujo (SP);
Bemvindo Siqueira (RJ).

terça-feira, 25 de março de 2014

A União Europeia não anexará a Ucrânia

Por Pepe Escobar, Rússia Today

A nova Ucrânia de “Yats”, Tyahnybok e Yarosh assinou, na maior correria, os itens políticos de um acordo de associação com a União Europeia (EU) em reunião em Bruxelas, na 6ª-feira passada.

Nada menos de 30 burocratas (nomeados, não eleitos) da UE também assinaram o documento, entre os quais o presidente do Conselho Europeu Herman Van Rompuy e o presidente da Comissão Europeia (CE) Jose Manuel Barroso.

É o mesmo negócio que o ex-presidente Viktor Yanukovich decidira rejeitar em novembro passado – rejeição que, na sequência, levou aos protestos na praça Maidan, a um putsch apoiado pelos EUA apesar de recheado de atores fascistas e neonazistas, o que levou Moscou a assumir o controle da Crimeia sem disparar um tiro.

Assim, em teoria, é o negócio que deu início a tudo. Essa não-entidade sem cara, ao estilo de Magritte, que atende pelo nome Van Rompuy, disse que “reconhece as aspirações do povo da Ucrânia, que quer viver em país governado por valores, por democracia e sob o império da lei.”

Muita calma nessa hora. Contenham os cavalos (mongóis). Como mostra a história, “democracia” e “império da lei” nada têm a ver com o governo dos mudadores-de-regime, do Setor Direita ou do Partido Svoboda em Kiev.

Yanukovich rejeitou o negócio com a UE por duas razões essenciais: (1) o negócio destruiria a indústria ucraniana (abrindo a porta à invasão por produtos ocidentais e o saque dos ricos solos agricultáveis da Ucrânia, pelo agronegócio ocidental); e (2) o negócio forçaria a Ucrânia a obedecer aos protocolos militares da OTAN.

O que foi assinado na 6ª-feira não é o xis da questão; é só uma integração comercial (leia-se: “Agora, podem saquear a Ucrânia”). A UE deixou a parte essencial para depois. Antes, o FMI terá de polir os detalhes mais mortíferos de próximo “ajuste estrutural”. Mas o Conselho Europeu já está prometendo[1] um jardim de rosas.

Trata-se, sempre, da OTAN

‘Especialistas’ acadêmicos e midiáticos em surto histérico repetem, 24 horas por dia, sete dias por semana, que, amanhã cedo, a Ucrânia já estará integrada à União Europeia (já praticamente em bancarrota). Nada disso. O negócio final não passará de um acordo de associação; depois, ainda haverá estrada longa e sinuosa até o país ser admitido na UE (admissão que, por falar dela, a maioria absoluta dos estados-membros da UE não querem).

O artigo 7.2. do acordo de associação determina que a Ucrânia terá de submeter-se à política externa e de segurança comum (PESC) [orig. common foreign and security policy (CFSP)] e à política europeia de segurança e defesa (PESD) [orig. European security and defense policy (ESPD). As condições podem ser lidas nos próprios documentos.[2]

Essa obscura – inclusive para muitos europeus – PESD é, nada mais nada menos, que o pilar europeu chave da OTAN. Tradução: ali se detalha o modo como a União Europeia é e permanece subordinada aos EUA (que controlam a OTAN). Por exemplo: a UE só pode agir em algum determinado caso DEPOIS de a OTAN decidir não agir. Além disso, o acordo de março de 2003 +Berlim[3] permite que a União Europeia use maquinário e softwares da  OTAN para operações militares, se e somente se a OTAN declinar de usá-los.

Tudo isso significa, essencialmente, isso sim, que a Ucrânia já está com o pé na estrada na direção de ser legalmente subordinada ao projeto da OTAN. Como outros analistas independentes, também tenho escrito, desde o início, que todo esse drama geopolítico visa, em primeiro lugar e sobretudo, à anexação da Ucrânia pela OTAN, não por alguma União Europeia.[4]

O pervertido caso de amor entre OTAN e Ucrânia começou no início dos anos 2000s. Depois de muito discutir-a-relação, ficou resolvido que OTAN-sim ou OTAN-não seria algum dia votado em referendo nacional. No encontro de Bucarest em 2008, a OTAN abriu os braços: declarou que a Ucrânia poderia vir e unir-se, no instante em que cumprisse as exigências. Em 2010 Yanukovich anunciou que a Ucrânia mudara de ideia, que perdera o interesse. Mesmo assim, a Ucrânia foi mantida como membro muito forte de uma Parceria para a Paz [orig. Partnership for Peace (PfP)], iniciativa da OTAN.[5]

Não surpreende que a OTAN esteja agora fazendo horas-extras no serviço de vender ao mundo a noção de que a Ucrânia está(ria) “sob ameaça” – e que deve unir-se “à aliança” o mais rapidamente possível. O secretário-geral da OTAN – aquele espantosamente medíocre poodle dos EUA, Anders Fogh Rasmussen – disse que estaríamos vivendo hoje a mais grave ameaça à segurança da Europa desde o fim da Guerra Fria: “Esse é o toque de despertar. Para a comunidade euro-atlântica. Para a OTAN. E para todos que se sintam comprometidos com uma Europa una, livre e em paz.”

Esqueceu de acrescentar: uma Europa livre e pacificamente submetida ao Pentágono.

O principal comandante militar da OTAN – não surpreendentemente, é norte-americano –, o general Philip Breedlove, anda espalhando por aí a ‘notícia’ de que a Rússia teria reunido força militar “muito, muito, muito considerável e muito, muito, muito pronta” nas fronteiras leste da Ucrânia. Moscou nega e repete que todos esses soldados lá estão conforme os exatos termos de acordos internacionais.[6]

Alguém, é claro terá de ceder. O ministro de Defesa da Rússia, general Sergey Shoigu conversou pelo telefone com Chuck Hagel, el supremo do Pentágono. Estão discutindo uma “desescalada das tensões”. Mas parece que burocratas e políticos da União Europeia e empregados da OTAN não foram informados.

Agora... será a vez da Transdnístria?[7]

A conversa da imprensa-empresa ocidental e dos ‘especialistas’ midiáticos na UE é que o incansavelmente demonizado presidente Putin deseja(ria) “desestabilizar” a Ucrânia e criar uma esfera de influência russa no sul e leste da Ucrânia até Odessa. Claro. Oh yes. E quer também anexar a Transdnístria.

Nada disso. De fato, foi o presidente do parlamento da Transdnístria, Mikahil Burla, quem pediu que Moscou incorporasse à Federação Russa a região de língua russa, no oeste da Moldávia. Afinal de contas, já em 2006, 97,2% dos que votaram em referendo então realizado declararam exatamente o mesmo desejo. Qual é o problema?

O problema é que a Moldávia – exatamente como aconteceu à Ucrânia – está às vésperas de assinar um acordo de associação e livre comércio com a União Europeia. E a Transdnístria (como, há poucos dias, a Criméia) não quer ser incluída no tal acordo.

Falta agora ver como a UE – essencialmente mediante o FMI – conseguirá ‘salvar’ a monstruosamente falida economia ucraniana. Um acordo de associação só tornará as coisas ainda piores e mais sombrias para os ucranianos médios. Venha o dinheiro que vier para Kiev, virá necessariamente condicionado a fatídicas cláusulas de ‘austeridade’.

Moscou não precisa “anexar” ou “invadir” coisa alguma. Moscou só precisa recostar-se à poltrona, relaxar e assistir aos movimentos do ocidente que tenta gerir a confusão monstro que o próprio ocidente criou. Exceto a retórica metida a feroz da OTAN e o papel assinado em Bruxelas na 6ª-feira, que não é importante, há poucos sinais de que os EUA (perdidos eles mesmos na confusão de tantos ‘pivôs’ que inventaram, para lá e para cá) e uma depauperada União Europeia terão capacidade, habilidade e disposição para cumprir o difícil trabalho de apoiar sem interrupção o governo dos mudadores-de-regime em Kiev.

Todos esses 15 anos que transcorreram depois que a OTAN bombardeou[8] a ex-Iugoslávia – levaram a surto serial de mudação de regimes; à balcanização do país; e a um “grande prêmio” (Kosovo convertido em Mafialândia; e a principal instalação imobiliária do país, “Camp Bondsteel”, item chave do Império Norte-americano de Bases). Agora, Rasmussen quer na Ucrânia um replay da OTAN na Iugoslávia?! Só imbecis entram correndo onde até os anjos temem tropeçar. A Rússia não é o Kosovo. ********


Tradução Vila Vudu


[4] 25/2/2014, Pepe Escobar, “A OTAN anexará a Ucrânia?”, Russia Today, traduzido em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/02/pepe-escobar-otan-anexara-ucrania.html
[7] “Transdnístria”, “região além do rio Dniester” (mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Transn%C3%ADstria) [Nts].

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