"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 28 de novembro de 2015

Notas sobre o “inimigo principal”

Fonte: Blog do Renato

Por A.Sérgio Barroso

“O mercado monetário é sempre, por assim dizer, o quartel general do sistema capitalista” (Schumpeter) [1]

Há poucos dias foi o poderoso Deutsche Bank (alemão) a anunciar demissão de 9 mil trabalhadores bancários para “melhorar a frágil situação do banco”, descreve o Financial Times. Isso representaria 9% do staff do banco, sendo que quatro mil demissões dessas ocorrerão na Alemanha. Além, o banco resolveu reduzir em 6 mil, dos 30 mil consultores externos usados em área com a de tecnologia e informação. Também saindo fora de dez mercados, principalmente em cinco países da América Latina, com a venda do Postbank (subsidiária) o Deutsche passará o “facão” em nada menos que outros 19 mil empregos!

Mas qual a razão essencial das medidas tomadas pelo Deutsche, o maior dos bancos da Alemanha? O próprio FT esclarece mais adiante que, pagante de uma multa de U$ 2,5 bilhões tomada por sua participação no escandaloso episódio de manipulação da Libor britânica (taxa de referência para juros interbancários, tabelada em Londres), culmina-se a demissão de seu executivo-chefe adjunto A. Jain[2]. O que foi seguido por nova falcatrua envolvendo o banco, desta vez na Rússia, então flagrado em lavagem de cerca de US$ 6 bilhões, nos últimos quatro anos – o diário londrino omite menção à operação de lavagem. [3]

Grande banco lava e financia o “terrorismo”

Não à toa temos registrado uma comprovação indisfarçável do contubérnio fraudulento e criminoso do atual sistema financeiro internacional: em 17 de Julho de 2012, tornou-se público e comprovado que David Bagley, diretor mundial do banco HSBC para regulamentação pediu demissão em sessão no Senado dos EUA. A sessão fora convocada para Bagley ser formalmente acusado, após investigação, de permitir operações de lavagem de dinheiro do narcotráfico (cartéis do México), bem como de dinheiro proveniente de financiadores de “grupos terroristas” (Arábia Saudita). A alta direção do banco sabia de tudo! [4] O banco tem raízes mergulhadas em guerras coloniais e comerciais conduzidas pelo imperialismo inglês na Ásia.

De acordo ainda com extensa reportagem da irreverente (e insuspeita de “esquerdista”) Revista Rolling Stone, durante pelo menos cinco anos esse maior banco britânico ajudou a lavar centenas de milhões de dólares para traficantes de drogas, incluindo o cartel de Sinaloa do México, declarou o ex-procurador-geral de New York, Eliot Spitzer: eles “fazem os caras em Wall Street parecerem bonzinhos”.

O banco HSBC também lavou dinheiro para organizações terroristas ligadas à Al-Qaeda, para gângsteres russos, entre outros; teria transacionado com o Irã, Sudão e a Coréia do Norte, países sancionados pela ONU. “Além de ajudar assassinos, traficantes de drogas, terroristas e estados desonestos”, auxiliando fraudes fiscais comuns para esconder muito dinheiro – afirma com todas as letras Jack Blum (advogado e ex-investigador do Senado dos EUA), chefe de uma investigação de suborno importante contra a empresa Lockheed em 1970. “Eles violaram todas as malditas leis que constam no livro”; “Eles fizeram todas as formas imagináveis e possíveis de negócios ilegais e ilícitos” – disparou então Blum, na mesma reportagem.

Oligopólio bancário global, gigantesca especulação sistêmica

Para François Morin, economista, professor emérito em Toulouse e membro do conselho geral do banco central francês, uma “hidra” mundial bancária nasceu há cerca de dez anos, e já tomou conta de todo o planeta. [5] Apenas 14 bancos com importância sistêmica “fabricam” derivativos, cujo valor imaginário (o montante dos valores segurados) chega a US$ 710 trilhões, ou mais de 10 vezes o PIB mundial (Produto Interno Bruto).

Conta ainda Morin que, desde 2012 autoridades judiciais dos Estados Unidos, britânicas e a Comissão Europeia aumentaram investigações e multas que demostram que muitos desses bancos – especialmente onze deles (Bank of America, BNP-Paribas, Barclays, Citigroup, Crédit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland, UBS) – montaram sistematicamente “acordos organizado em bandas”. Isto é, construíram um oligopólio movido à uma cartelização sistêmica. O que pode ser visto na citada operação de manipulação da Libor e do mercado de câmbio, que levou a imposição de multas de muitos bilhões de dólares, prática esta cada vez mais generalizada.

Coincidindo com o avanço da “globalização financeira”, o super-oligopólio bancário tornou-se muito rico: o balanço total dos 28 bancos do oligopólio (50,341 trilhões de dólares) é superior, em 2012, à dívida pública global (48,957 trilhões de dólares)! Suas dívidas privadas tóxicas foram maciçamente transferidas para os Estados, na última crise global. Ao lado de montanhas de riqueza fictícia, por suposto.

Na argumentação de Morin, depois dos anos 1970 os Estados perderam “toda a soberania monetária” – sendo eles os responsáveis. A moeda agora é criada pelos bancos, na proporção de cerca de 90%, e pelos bancos centrais (em muitos países, independentes dos Estados) os restantes 10%. Além disso, a gestão da moeda, através de taxas de câmbio e taxas de juros, está inteiramente nas mãos do oligopólio bancário, que tem todas as condições para manipulá-los. O desastre “está diante de nós” conclui Morin; e se um novo terremoto financeiro ocorrer – “as condições estão maduras” – os Estados estão exauridos, e será “ainda mais grave do que o precedente”.

Fraude bancária no Brasil

No último dia dezoito, veio à luz no Brasil [6] que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) negocia acordos com bancos que estão sendo investigados por “supostas” (?) manipulações nas taxas de câmbio no Brasil, entre 2009 e 2011, pelos quais eles terão que entregar provas de cartel para obter redução de penas.

Dos 15 bancos investigados, logo uma surpresa! Os mesmos HSBC e DEUTSCHE encabeçam a lista junto ao Banco Standard de Investimentos, o Banco Tokyo-Mitsubishi UFJ, o Barclays, o Citigroup, o Credit Suisse, o J.P. Morgan Chase, o Merrill Lynch, o Morgan Stanley, o Nomura, o Royal Bank of Canada, o Royal Bank of Scotland (RBS), o Standard Chartered e o UBS.

Provando cabalmente que nada há de “suposto” na operação fraudadora multinacional no país, o suíço UBS já assinara em julho passado um “acordo de leniência” assegurando documentalmente ter havido sua participação na patifaria planejada e executada! Mas  há – diz-se no jornal – ainda 30 pessoas físicas suspeitas de participação na roubalheira.

Marx e o sistema de crédito

Para Marx, a consequência decisiva do desenvolvimento capitalista converge para o que denomina de “moderno sistema de crédito”. Ou seja, na medida em que: (i) a concentração (e centralização) de capitais; e, (ii) o moderno sistema de crédito são por ele considerados as principais “alavancas da acumulação capitalista”. Nele localiza os pressupostos sobre o impulso à superacumulação de capital tendo por base a dinâmica permanente do capital financeiro (capital-dinheiro ou capital monetário) e sua direta relação com superacumulação, especulação e crises. Em suas visionárias palavras:

“Se o sistema de crédito é o propulsor principal da superprodução e da especulação excessiva… (…) acelera o desenvolvimento material das forças produtivas e a formação do mercado mundial… (…) Ao mesmo tempo, o crédito acelera as erupções violentas dessa contradição, as crises… (…) levando a um sistema puro e gigantesco de especulação e jogo”. [7]

NOTAS

[1] Em: “A teoria do desenvolvimento econômico”, J.A. Schumpeter, Abril Cultural, 1983 [1911], p. 86).

[2] Acompanhe esse revelador episódio aqui: https://br.noticias.yahoo.com/mundo-econ%C3%B4mico-pol%C3%ADtico-comemora-demiss%C3%A3o-diretores-deutsche-bank-174848465–sector.html

[3]Ver: http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/presidentes_do_deutsche_bank_renunciam_apos_escandalo_das_taxas_de_juro.html

[4]Ver: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/55138-hsbc-lavou-dinheiro-diz-senado-dos-eua.shtml

[5] Em: “A hidra mundial. O monopólio bancário” http://outraspalavras.net/posts/os-28-bancos-que-controlam-o-dinheiro-do-mundo/

[6] Em: “Bancos negociam acordos com o Cade”, J. Basile, Valor Econômico, 18/11/2015.

[7]  Ver: O Capital, Livro 3, volume 5, p. 510, Civilização Brasileira, s/data.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça será entregue hoje em Brasília



A cerimônia de entrega da 5ª edição do Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça acontece nesta terça-feira às 16h30, na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio, em Brasília (DF).

Iniciativa do Governo Federal, coordenado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, o selo é conferido às empresas que executam ações para a promoção da igualdade de gênero e raça no ambiente de trabalho.

Voltado para empresas de médio e grande porte, públicas e privadas, ou com personalidade jurídica própria, o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça existe há dez anos e conta com a parceria da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da ONU Mulheres, que recentemente também lançou uma importante campanha pela "Igualdade de Gênero e o Empoderamento de Mulheres e meninas".

Segundo a entidade, enquanto o mundo tem alcançado progressos no sentido da igualdade de gênero no âmbito do Desenvolvimento do Milênio, muitas mulheres continuam a sofrer discriminação e violência em todas as partes do mundo. E a igualdade de gênero ou de raça não são apenas direitos humanos fundamentais, mas valores necessários para a construção de um mundo pacífico, próspero e sustentável.



Ações como a implantação de salas de apoio para amamentação, ampliação de licenças maternidade ou paternidade, a produção de material educativo sobre temas como assédio ou racismo, a remuneração igualitária e sem discriminação, são exemplos de como as empresas podem concorrer ao prêmio.

Ao participar do programa, a empresa precisa elaborar uma ficha com o perfil da organização e um 'Plano de Ação' com o detalhamento de como irá desenvolver as ações de equidade de gênero e raça.



A adesão é voluntária, mas este ano, 68 empresas vão receber o Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça. O evento tem início a partir das 16h30, na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC), na W5, 902 sul, Bloco C Brasília (DF).

A cerimônia já tem a presença confirmada da presidenta Dilma Rousseff.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Morre Zilda Xavier

Esse blog presta uma homenagem à Zilda Xavier Pereira com esse belo texto do jornalista Mário Magalhães, autor da biografia de Carlos Marighella.

Zilda Xavier Pereira, presente!

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Por Mário Magalhães

Uma das mais importantes militantes da luta armada contra a ditadura, Zilda Xavier Pereira morreu hoje em Brasília. Ela integrou o comando da Ação Libertadora Nacional, maior organização guerrilheira do país. Seus filhos Iuri e Alex Xavier Pereira, também guerrilheiros, foram assassinados por agentes da ditadura. Zilda foi companheira de militância e de amor do revolucionário Carlos Marighella.

Filha de pai ferroviário e mãe dona de casa de origem camponesa, Zilda Paula Xavier Pereira nasceu no Recife em 22 de novembro de 1925.

Na manhã deste domingo, 22 de novembro de 2015, Zilda se foi pouco depois das oito da manhã. No dia cravado em que completava 90 anos.

E que 90 anos.

Em maio de 1945, recém-chegada ao Rio, Zilda incorporou-se ao Partido Comunista.

O PCB foi declarado ilegal em maio de 1947, e ela adotou o nome de guerra Zélia, reverência à sua camarada Zélia Magalhães, assassinada a bala por policiais em outro maio, do ano anterior, quando participava de um protesto no largo da Carioca.

Zilda foi uma das dirigentes da Liga Feminina da Guanabara, de incontáveis batalhas, até a associação ser banida pelo golpe de Estado de 1964.

Na casa dela, Carlos Marighella se reuniu com sargentos antes do encontro deles com o presidente João Goulart, em 30 de março daquele ano.

Em 1967, Zilda, o ex-marido e os filhos acompanharam Marighella na ruptura com o PCB.

A família foi pioneira da Ação Libertadora Nacional. No Rio, a ALN se estruturou em torno dos Xavier Pereira.

Eram guerrilheiros, empenhados nas ações armadas e na logística da ALN, Zilda, seu ex-marido, João Batista, e os filhos Iuri, Alex e Iara. Todos Xavier Pereira.

Com quem estavam os guerrilheiros Marighella e Virgílio Gomes da Silva quando compraram um Fusca para usar no assalto ao carro pagador do Instituto de Previdência do Estado da Guanabara? Com Zilda, cuja identidade na ALN era Carmem. Marighella foi visto na ação, em novembro de 1968, e acabou na capa da “Veja''.

Depois de abril de 1964, é possível que ninguém tenha passado tanto tempo com Marighella quanto Zilda. O último “aparelho'' dos dois, no bairro carioca de Todos os Santos, jamais foi descoberto pelos beleguins da ditadura. Quem zelava pela segurança de Marighella na clandestinidade? Zilda.

O clip dos Racionais sobre Marighella, “Mil faces de um homem leal'', veicula declarações dele em conversa com uma moça. A voz é da então adolescente Iara. Onde ocorreu a gravação? No “aparelho'' montado por Zilda.

Como essa fita sobreviveu? Porque Zilda a levou para o estrangeiro, onde a gravação foi anexada ao arquivo do célebre comunista Astrogildo Pereira.

Das pessoas que eu conheci, poucas tiveram perdas como Zilda.

Ela perdeu Marighella em 4 de novembro de 1969, quando o guerrilheiro que incendiou o mundo foi fuzilado em São Paulo. Zilda estava no exterior.

Zilda parte no aniversário dos 90. Sua saúde tinha se agravado 18 dias atrás, em 4 de novembro, quando foi vítima de paradas cardíaca e respiratória. Justo nos 46 anos da morte de Marighella.

No finzinho de janeiro de 1970, prenderam Zilda no Rio. Torturaram-na à exaustão, e nenhuma informação lhe arrancaram - a leitura do seu depoimento no Exército emociona até almas brutas. No futuro, ela diria que guardou seus segredos para honrar a memória de Marighella: “Eu via o Marighella na minha frente. Pensava: 'Carlos Marighella não é homem para ser traído, eu jamais trairei Carlos Marighella'.''

As dores nos joelhos, decorrentes do pau-de-arara, infernizaram-lhe até o fim da vida. Com ajuda de companheiros e amigos, Zilda escapou do hospital em que a haviam internado, depois da simulação de surto de insanidade. Era 1º de maio de 1970, e ela só regressaria do exílio em 1979.

Quando Zilda estava fora do Brasil, esbirros da ditadura mataram seu filho Alex, 22.

Em seguida, Iuri, 23.

Não demorou, e foi a vez do companheiro de Iara, que estava grávida, o guerrilheiro Arnaldo Cardoso Rocha, 23.

Arnaldo não teve tempo de conhecer o filho, Arnaldinho. Já rapaz, o neto de Zilda morreu num acidente de carro.

Zilda sobreviveu às dores. Nunca mais pertenceu a partido algum. “Minhas organizações foram duas, o PCB e a ALN'', costumava me dizer.

Como escrevi em livro, se informação equivale a poder, Zilda foi um dos três dirigentes mais poderosos da ALN, junto com Marighella e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira.

A vida vai passar, não sei se chegarei aos 90 anos da Zilda. Mas sei que não esquecerei a generosidade dela. Não me conhecia, mas me recebeu de braços abertos para contar sua história e as histórias de tanta gente. Em troca de nada, sem nem ao menos perguntar o que eu pensava dela, de suas ideias e de suas devoções. Minha gratidão eterna, Zilda.

Não é preciso concordar com Zilda ou discordar dela para admirar a dignidade com que foi à luta. De família pobre, estudou até o equivalente hoje ao quinto ano do ensino fundamental. Compensou a escassa formação com suas virtudes de inteligência, intuição e destemor.

Comovido com a coragem da mãe na cadeia, Iuri lhe remeteu uma carta: “Não nos dizemos adeus porque em verdade, estando integrados em uma luta assim, por mais distantes que estivermos, estaremos ombro a ombro sempre. E aconteça o que acontecer, todo ato que um realize será também a ação do outro. […] Um beijo do companheiro-filho (filho-companheiro) à companheira-mãe (mãe-companheira)''.

P.S.: o velório de Zilda Xavier Pereira começará às 13h30 desta segunda-feira, na capela 5 do cemitério Campo da Esperança, em Brasília. O sepultamento está marcado para as 15h

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Realismo Fantástico

Foto: Jorge William/AgGlobo
Se um petista tivesse dado um tiro na frente do Congresso, seria manchete na mídia nos próximos meses. Como não é, nem o nome dele foi mencionado.

Ontem eu acompanhava, no Congresso, a pauta dos vetos e da Comissão de Ética, por isso não estava no gramado quando a confusão começou. Assim que soube (via whatsapp), tentei correr para lá mas com o bloqueio da entrada principal, precisei dar a volta pelo anexo, ou seja, quando finalmente cheguei ao gramado a confusão já tinha se dissipado. Só soube exatamente o que ocorreu mais tarde, conversando com quem esteve, acompanhando relatos na internet ou nas poucas notícias que saíram na TV.
Se alguém do PT, da esquerda, da CUT, do MST, do PSOL ou UM NEGRO tivesse puxado uma arma e dado um tiro na frente do Congresso Nacional brasileiro, essa pessoa seria personagem das mais variadas reportagens. Para começar, ele seria o grande destaque da edição de ontem do "maior" telejornal, com aquele colega na bancada fazendo a abertura com uma expressão grave no rosto. Traçariam o perfil do sujeito, iriam atrás da ficha criminal, tentariam ligá-lo ao uso de drogas ou qualquer coisa ilícita que "justificasse" o ato impensado, tentando ainda "demonstrar" que essa é uma atitude esperada "daquele pessoal da esquerda".
E vejam, não importa que ele seja (se for mesmo) um policial, já que ele estava ali na condição de manifestante, acampado. Mesmo tendo o direito de estar armado (se é que tem mesmo) ele deveria ter tido o equilíbrio de não sacar uma arma no meio da multidão. Se ele fosse da esquerda (ainda que um policial), estaria em todos os jornais, sua cara estampada com a foto do documento, entrevista com os vizinhos/parentes dizendo que ele ultimamente tem estado "meio perturbado", haveria painel na GNews com especialistas comentando o ato de intolerância, o Datena faria um daqueles editoriais bem baixo nível, todo o roteiro de realismo fantástico da imprensa brasileira, como já o conhecemos.
No entanto, quando cheguei em casa, assisti à TODOS os principais noticiários, de TODOS os canais da TV aberta e fechada. NENHUM deles disse o nome do sujeito e, pelo contrário, a notícia não foi destaque. Em meio ao assunto do dia no Congresso, o fato de um homem ter sacado uma arma e disparado à esmo em frente a uma ÁREA DE SEGURANÇA NACIONAL e próximo a uma manifestação de mulheres contra o racismo, não teve qualquer importância para quem decide o que é notícia no Brasil.
E aí me lembro que "nossos" representantes, que fazem parte da (já famosa) bancada 'BBB', estão lutando para que os "cidadãos de bem" também possam portar armas. Em uma cena como a de ontem, no meio da confusão, com a polícia despreparada que temos - que atira para todo lado sob pressão - teríamos visto um bang bang em plena Capital do país. No primeiro tiro os cidadãos de bem, armados e assustados, passariam a disparar também, a polícia revidaria sem saber bem em qual direção. Teria sido uma carnificina, com muita carne NEGRA estirada em frente ao símbolo da nossa representação popular.
Mas um tiro na frente do Congresso Nacional em meio à uma manifestação de mulheres, não é algo que mereça importância, principalmente vindo de quem pede o "impeachment" ou a "intervenção militar". Não fosse a internet, teríamos passado por esse fato como se ele não fosse importante. Isso não pode ser real.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

OXI Grécia

Contra todas as previsões, a Grécia disse NÃO aos credores europeus.

Os gregos festejaram nesse domingo o que chamaram de "vitória da dignidade" no referendo convocado pelo Primeiro-Ministro Alex Tsipras.

Na praça Syntagma o povo deixou claro que mesmo festejando a expressiva vitória do “não” - com 61,31% - os gregos preferem que o país chegue a um acordo com a União Europeia.

Confira as informações na reportagem do Cultura Notícias Internacional, programa que vai ao ar, diariamente, às 18h pela Rádio Cultura FM de Brasília.



quinta-feira, 25 de junho de 2015

Movimentos sociais se mobilizam pelo palestino-brasileiro Islam Hamed

Membros da Frente de Solidariedade a Palestina se mobilizam hoje em frente ao Palácio do Planalto em Brasília, e em outras capitais, na defesa da libertação imediata de um jovem brasileiro-palestino.

Islam Hamed, 30 anos, se encontra preso desde 2013 em Ramallah, na Cisjordânia.

As várias Frentes e Comitês que atuam na solidariedade à Palestina e outros movimentos sociais se solidarizam com o caso de Islam Hamed e pedem ao Governo brasileiro que atue com mais enfase para sua libertação.

Confira na reportagem de Juliana Medeiros no CULTURA NOTÍCIAS INTERNACIONAL da RÁDIO CULTURA FM DE BRASÍLIA.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Cuba Money Project

O governo dos EUA tem gasto milhões de dólares todos os anos para impulsionar movimentos "pró-democracia" em Cuba. Na década de 60 a CIA conspirou para matar Fidel Castro explodindo charutos e até uma câmera de TV com uma metralhadora embutida. Décadas mais tarde, Castro já aposentado, o jogo de rancor da Guerra Fria sobre Cuba continua.

As táticas dos EUA evoluíram. Autoridades americanas abraçam abertamente estratégias para a mudança de regime em Cuba (como parte de um programa internacional que é aplicado também em outros países, como a Ucrânia, mas nenhum com tanta ênfase como acontece em Cuba) e já gastou mais de US$ 100 milhões nos últimos anos tentando minar o governo socialista.

Os defensores dos programas "pró-democracia" dizem que eles são a chave para ajudar os cubanos a alcançar uma maior liberdade. Os críticos dizem que os EUA não tem o direito de interferir nos assuntos internos de Cuba. O fato é que tais programas são uma das maiores fontes de tensão nas relações EUA-Cuba, mesmo hoje com a abertura diplomática.

O jornalista norteamericano Tracey Eaton* viaja com frequência para a ilha e tem procurado relatar sobre esta batalha pelos corações, mentes e a alma da nação cubana. Ele já recebeu dois subsídios do Centro Pulitzer para suas investigações jornalísticas. Um dos materiais está reunido neste website "Cuba Money Project":


Clique para acessar o website

* Tracey Eaton é professor assistente na Faculdade de Flagler. Ele leciona redação, comunicação e fotografia. Foi chefe do escritório do Dallas Morning News em Cuba, entre o ano 2000 e o início de 2005. É jornalista e fotógrafo desde 1983. Em 2008, criou um blog sobre Cuba chamado Along the Malecón. Em 2010 e em 2011, recebeu uma subvenção do Centro Pulitzer para apoiar suas reportagens em Cuba. Ele vem investigando programas de democracia financiados pelos US em Cuba.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Revolução não será televisionada - Hoje em Brasília!

Exibição do documentário "A Revolução não será televisionada"  e posterior debate com a participação da Embaixadora da República Bolivariana da Venezuela e do Jornalista Renato Rovai.


Clique para ampliar


Segunda-feira 08/06/2015 às 19h
Teatro dos Bancários 314/315 Sul
Entrada franca


Sobre o evento, na Rádio Cultura FM de Brasília:

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Grupo Parlamentar Brasil-Cuba é reinstalado

Do Solidários:





Embaixadora cubana (de vermelho) e parlamentares brasileiros




Da página da Embaixada de Cuba no Brasil

Com uma ampla representação de senadores e deputados federais, foi reinstalado o Grupo Parlamentar de Amizade Brasil-Cuba, correspondente à 54ª Legislatura do Congresso Nacional brasileiro. O agrupamento cumpriu 26 anos de trabalho ininterrupto e é nesse momento o maior dentro do parlamento brasileiro, com 142 integrantes e novas adesões em processo de formalização.

O evento, conduzido pela presidenta do Grupo, senadora Lídice da Mata, contou com a presença do primeiro vice-presidente da Câmara Federal, deputado Waldir Maranhão e a presidenta da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara, deputada Jô Moraes. Todos ratificaram que empregarão seus respectivos mandatos para favorecer o estreitamento das relações interparlamentares entre Brasil e Cuba, assim como as iniciativas que viabilizem as relações de intercâmbio entre os respectivos governos e povos.

O encontro possibilitou um frutífero debate sobre a atualidade cubana e suas perspectivas entre a embaixadora cubana Marielena Ruiz Capote e os parlamentares presentes.

A embaixadora lhes agradeceu as continuadas e diversas mostras de apoio a Cuba durante todos esses anos de trabalho, assim como as mais recentes iniciativas a favor do levantamento do bloqueio dos Estados Unidos, a liberdade dos Cinco e a favor da plena inserção de Cuba na região latino-americana e caribenha, materializada na CELAC. 

Os parlamentares presentes, por sua vez, elogiaram o trabalho dos médicos cubanos que participam no Programa Mais Médicos; destacaram a solidariedade cubana na formação de médicos brasileiros e de outros países na ELAM e manifestaram sua disposição em contribuir mais, a partir do Congresso, para que se incrementem a cooperação, o intercâmbio comercial e os investimentos entre nossos dois países.

O ato de reinstalação terminou com a leitura e aprovação de uma moção do Grupo a favor do levantamento do bloqueio [embargo] dos Estados Unidos contra Cuba.

Lei a moção, retirada do site da senadora Lídice da Mata.

"Moção pelo fim do embargo econômico a Cuba

O Grupo Parlamentar Brasil Cuba, em funcionamento há 26 anos ininterruptos no Congresso Nacional Brasileiro, neste momento de reinstalação das suas atividades ao princípio da 55a. Legislatura, manifesta sua solidariedade e apoio à justa causa do povo cubano pelo fim do bloqueio econômico ainda imposto pelo Governo dos Estados Unidos da América.

Em dezembro de 2014, o mundo acompanhou com atenção o restabelecimento das relações entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos, rompidas há meio século até então. A ruptura de relações e o bloqueio econômico foram medidas adotadas com a intenção de asfixiar o governo revolucionário cubano que se instalava em 1959. Na época, todos os países latino-americanos, com exceção do México, seguiram a mesma linha de rompimento e cessar das compras e venda de produtos com Cuba.

Por décadas a fio, Cuba sofreu com tentativas de invasão (1961), ações de terrorismo, tentativas de atentados, sanções econômicas e, mesmo assim, resistiu e, pouco a pouco, foi recuperando terreno político, diplomático e comercial na América Latina, a ponto de ser uma das principais nações articuladoras do projeto da CELAC na região. Passado meio século, Cuba e Estados Unidos voltam a se relacionar sob a base do respeito entre nações soberanas e iguais, além do retorno dos cinco cubanos há anos presos nos EUA.

O Grupo Parlamentar Brasil Cuba manifesta seu reconhecimento à enorme contribuição do povo cubano aos numerosos avanços políticos, econômicos, sociais e tecnológicos da América Latina, com destaque às conquistas na área da saúde e da educação pública, essenciais para nossa população. E aproveita este momento para reforçar sua consideração sobre a urgência do imediato fim do bloqueio econômico que injustamente ainda prevalece sobre este país irmão".

Tradução: Eduardo Vasco.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Discurso de Raul Castro na Cúpula das Américas

Tradução: Solidários a Cuba









Era hora de eu falar aqui em nome de Cuba.

Foi-me dito, no início, que poderia proferir um discurso de oito minutos; embora fizesse um grande esforço, junto com meu chanceler, para o reduzir para oito minutos, mas como me devem minha participação em seis cúpulas anteriores, das quais fomos excluídos, então 6 por 8 é 48 (RISOS E APLAUSOS), e pedi permissão ao presidente Varela, alguns momentos antes de entrar neste magnífico salão, para me ceder alguns minutos mais, especialmente depois de tantos discursos interessantes que estamos escutando, e não me refiro apenas ao do presidente Obama, mas também o do presidente do Equador, Rafael Correa, e o da presidente Dilma Rousseff e outros.

Sem mais demora, eu vou começar. Sua Excelência Juan Carlos Varela, presidente da República do Panamá; Presidentes: Primeiras e primeiros-ministros; Ilustres convidados: Em primeiro lugar, eu quero expressar nossa solidariedade com a presidente Bachelet e com o povo de Chile, pelas catástrofes naturais que têm sofrido.

Agradeço a solidariedade de todos os países da América Latina e do Caribe, que permitiu a Cuba participar em igualdade neste fórum hemisférico, e ao presidente da República do Panamá pelo convite que tão amavelmente nos enviou.

Eu trago um fraternal abraço ao povo panamenho e todas as demais nações aqui representadas. Quando, em 2 e 3 de dezembro de 2011, foi criada em Caracas a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), foi inaugurada uma nova etapa na história da Nossa América, o que deixou claro seu direito bem ganho de viver em paz e a se desenvolver como livremente determinarem seus povos, e se traçou para o futuro um caminho de desenvolvimento e integração, baseado na cooperação, na solidariedade e na vontade comum de preservar a independência, a soberania e a identidade.

O ideal de Simon Bolívar de criar uma “grande Pátria Americana” inspirou verdadeiras epopeias de independência.

Em 1800, pensou-se em adicionar Cuba à União do Norte, como o limite sul do vasto império. No século XIX, surgiram a doutrina do Destino Manifesto, com o fim de dominar as Américas e o mundo, bem como a ideia de Fruta Madura para a gravitação inevitável de Cuba em direção à União Americana, que desprezava o nascimento e desenvolvimento de um pensamento próprio e emancipatório. Depois, através de guerras, conquistas e intervenções, esta força expansionista e hegemônica despojou a Nossa América de vastos territórios e se estendeu até o Rio Grande.

Depois de longas lutas que foram frustradas, José Martí organizou a “guerra necessária” de 1895 — a Grande Guerra, como também foi chamada, começou em 1868 — e criou o Partido Revolucionário Cubano para liderar essa contenda e depois fundar uma República “com todos e para o bem comum”, que se propunha atingir “a dignidade plena do homem”.

Ao definir com certeza e antecipação os traços de seu tempo, José Martí se consagrou ao dever “de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se espalhassem pelas Antilhas e caíssem com força, sobre nossas terras da América”: essas foram suas palavras exatas.

Nossa América é para ele a do crioulo, do índio, do negro e do mulato, a América mestiça e trabalhadora que tinha de fazer causa comum com os oprimidos e saqueados. Agora, mais além da geografia, este é um ideal que começa a se tornar realidade. Há 117 anos, em 11 de abril de 1898, o então presidente do Congresso dos Estados Unidos solicitou autorização para intervir militarmente na guerra de independência que por quase 30 anos Cuba vinha travando, já ganha praticamente, ao preço de rios de sangue cubano, e aquele — o Congresso norte-americano — emitiu sua Resolução Conjunta enganosa, que reconhecia a independência da Ilha “de fato e de direito”.

Vieram como aliados e se apoderaram do país como ocupantes. Impôs-se a Cuba um apêndice em sua Constituição, a Emenda Platt — conhecida assim pelo nome do senador que a propôs — que despojou Cuba de sua soberania, autorizava o poderoso vizinho a intervir nos assuntos internos e deu origem à Base Naval de Guantánamo, que ainda usurpa parte do nosso território. Nesse período, a invasão do norte da capital foi aumentando, e mais tarde houve duas intervenções militares e o apoio a ditaduras cruéis.

Quando os cubanos, no início do século XX, fizeram seu projeto de Constituição e a apresentaram ao governador, um general norte-americano auto-nomeado pelos EUA, este respondeu que estava algo faltando. E quando os cubanos, membros da Assembleia Constituinte perguntaram, o governador respondeu: Este emenda apresentada pelo senador Platt, dando direito de intervir em Cuba, sempre sob a consideração dos Estados Unidos.

Eles fizeram uso desse direito; é claro, os cubanos rejeitaram isso e a resposta foi: Muito bem, vamos ficar aqui. E isso durou até 1934. Houve mais duas intervenções militares e o apoio a ditaduras cruéis no período mencionado.

Para a América Latina prevaleceu a “política das canhoneiras” e, a seguir, a do “Bom Vizinho”. Sucessivas intervenções derrubaram governos democráticos e instalaram ditaduras terríveis em 20 países, 12 delas simultaneamente.

Quem entre nós não se lembra dessa fase bastante recente de ditaduras em todos os lugares, principalmente na América do Sul, onde milhares de pessoas foram assassinadas? O presidente Salvador Allende nos deu um exemplo imperecível.

Exatamente 13 anos atrás, houve um golpe de Estado contra o entranhável presidente Hugo Chavez, que o povo derrotou. Depois veio, quase que imediatamente, o custoso golpe petroleiro. Em 1º de janeiro de 1959, 60 anos após a entrada dos soldados norte-americanos em Havana, triunfou a Revolução cubana e o Exército Rebelde, comandado pelo comandante-em-chefe Fidel Castro Ruz chegou à capital, no mesmo dia, exatamente 60 anos depois.

Tais são as ironias incompreensíveis da história. O povo cubano, a um preço muito alto, começou o pleno exercício da sua soberania. Foram seis décadas de dominação absoluta. Em 6 de abril de 1960 — apenas um ano após o triunfo — o subsecretário do Estado Lester Mallory escreveu em um perverso memorando — e não consigo achar outro adjetivo para lhe dar.

Este memorando foi revelado dezenas de anos mais tarde — e cito alguns parágrafos: “(...) a maioria dos cubanos apoia Castro...

Não há uma oposição política efetiva. A única opção previsível para tirar-lhe o apoio interno é através do desencanto e do descontentamento, com base na insatisfação e nas dificuldades econômicas (...), enfraquecer a vida econômica (...) e privar Cuba de dinheiro e suprimentos para reduzir os salários nominais e reais, causando a fome, o desespero e a derrubada do governo”.

Fim de citação. Em torno de 77% da população cubana nasceu sob os rigores impostos pelo bloqueio, mais terríveis do que imaginavam, inclusive, muitos cubanos, mas nossas convicções patrióticas prevaleceram, a agressão fez aumentar a resistência e acelerou o processo revolucionário. Isso acontece quando o processo revolucionário natural dos povos é assediado. O assédio traz mais revolução, a história o demonstra e não só no caso do nosso continente ou de Cuba.

O bloqueio não começou quando foi assinado pelo presidente Kennedy, em 1962, acerca do qual eu farei uma breve referência a ele, por causa de uma iniciativa positiva de manter contato com o chefe da nossa Revolução, para começar o que estamos começando agora o presidente Obama e eu; quase ao mesmo tempo, veio a notícia de seu assassinato, quando sua mensagem estava sendo recebida. Quer dizer, que a agressão aumentou.

No ano 1961 se produziu a invasão pela Baía dos Porcos, uma invasão mercenária, promovida e organizada pelos Estados Unidos. Seis anos de guerra contra os grupos armados que em duas ocasiões se espalharam pelo país todo. Nós não tínhamos nenhum radar e a aviação clandestina — nem se sabia de onde vinha — jogando armas em paraquedas.

Esse processo nos custou milhares de vidas; os custos econômicos não temos sido capazes de avaliá-los com precisão. Foi em janeiro de 1965 quando concluiu e o tinham começado a apoiar no fim do ano 1959, cerca de 10 ou 11 meses após o triunfo da Revolução, quando ainda não tínhamos declarado o socialismo, que foi declarado em 1961, no funeral das vítimas dos bombardeios aos aeroportos, no dia antes da invasão.

No dia seguinte, nosso pequeno exército, naquela época e nosso povo todo, foi combater a agressão e cumpriu a ordem do chefe da Revolução de destruí-la antes das 72 horas. Porque se a invasão se tivesse consolidado lá, no lugar do pouso, que era protegido pela maior pantanal do Caribe insular, teriam transferido para ali um governo já constituído — com primeiro-ministro e os outros ministros já nomeados — que estava em uma base militar dos EUA na Flórida. Caso eles chegarem a consolidar a posição inicialmente ocupada, teria sido muito fácil transferir esse governo para a Baía dos Porcos.

E imediatamente a OEA, que já nos tinha punido, por nós termos proclamado ideias alheias ao continente, teria dado seu reconhecimento.

O governo formado em Cuba, tendo como base um pedacinho de terra, teria pedido ajuda à OEA e essa ajuda estava a bordo de navios norte-americanos de guerra, a três milhas da costa, que era o limite então existente das águas territoriais, que como vocês sabem agora é de 12. E a Revolução continuou se fortalecendo, se radicalizando.

A outra questão era desistir.

O que teria acontecido então? O que teria acontecido em Cuba? Quantas centenas de milhares de cubanos teriam morrido; porque já tínhamos centenas de milhares de armas ligeiras; já tínhamos recebido os primeiros tanques, os quais nem sabíamos manipular bem.

Quanto à artilharia, sabíamos disparar, mas não sabíamos aonde caíam os projéteis; o que alguns milicianos aprendiam de manhã, tinham que ensiná-lo aos outros na parte da tarde.

Mas havia um monte de valor, era preciso avançar pela mesma rota, porque era um pantanal, onde as tropas não se podiam desdobrar, nem avançar os tanques e os veículos pesados. Nós tivemos mais baixas do que os atacantes.

Assim foi cumprida a ordem dada por Fidel: dar cabo deles antes das 72 horas. E essa mesma frota americana era a que acompanhou a expedição que saiu da América Central, e estava lá, podia ser vista a partir da costa, alguns de seus navios estavam a só três milhas.

Quanto custou à Guatemala a famosa invasão de 1954? Eu me lembro bem, porque era um prisioneiro na prisão da Ilha da Juventude — ou de Pinos, como era chamada então — por causa do ataque ao quartel Moncada, um ano antes.

Quantas centenas e milhares de índios maias, aborígines e outros cidadãos guatemaltecos morreram ao longo de um longo processo que vai levar anos para se recuperar? Esse foi o começo. Quando tinha sido proclamado o socialismo e o povo tinha lutado para defender Praia Girón, o presidente John F. Kennedy — ao qual me referi há pouco — foi assassinado precisamente no mesmo momento, no mesmo dia em que o líder da Revolução cubana, Fidel Castro recebia uma mensagem dele — de John Kennedy — procurando iniciar o diálogo. Após a Aliança para o Progresso e de termos pago várias vezes a dívida externa, sem impedir que essa dívida se continuasse multiplicando, nos impuseram um neoliberalismo selvagem e globalizado, como expressão do imperialismo nesta época, que deixou uma década perdida na região. “A proposta então de uma parceria hemisférica madura foi a tentativa de impor-nos a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), associada com o surgimento destas Cúpulas, que teria destruído a economia, a soberania e o destino comum de nossas nações, se não a tivéssemos feito naufragar em 2005, em Mar del Plata, sob a liderança dos presidentes Chávez, Kirchner e Lula.

Um ano antes, Chávez e Fidel tinham feito nascer a Alternativa Bolivariana, hoje Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América. Excelências: Eu expressei — e o reitero agora — ao presidente Barack Obama, a nossa disposição ao diálogo respeitoso e à convivência civilizada entre os dois estados, dentro de nossas diferenças profundas.

Eu aprecio como um passo positivo sua declaração recente que determinará rapidamente sobre a presença de Cuba em uma lista de países que patrocinam o terrorismo, na qual nunca Cuba devia ter estado, imposta sob a administração do presidente Reagan.

Acaso nós somos um país terrorista! Sim, fizemos alguns atos de solidariedade com outros povos, que podem ser considerados terroristas, quando estávamos encurralados, cercados e assediados até o infinito, houve apenas uma escolha: a rendição ou lutar. Vocês sabem qual foi a que nós escolhemos, apoiados por nosso povo.

Acaso alguém pode pensar que vamos obrigar todo um povo a fazer o sacrifício feito pelo povo cubano para sobreviver, para ajudar outras nações? (APLAUSOS). Mas “a ditadura dos Castro” os obrigou a votar pelo socialismo, com 97,5% de apoio da população.

Reitero que aprecio como um passo positivo a recente declaração do presidente Obama acerca de determinar rapidamente sobre a presença de Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo, na qual nunca devia ter estado, dizia-lhes, porque quando nos impuseram essa lista, afinal os terroristas éramos os que púnhamos os mortos — não tenho em mente o dado exato — só por causa do terrorismo dentro de Cuba e em alguns casos de diplomatas cubanos em outras partes do mundo que foram assassinados.

Meus colegas me deram agora o dado: nessa fase tivemos 3.478 mortos e 2.099 pessoas com deficiências para toda a vida; além de muitos outros que ficaram feridos. Os terroristas foram aqueles que puseram os mortos.

De onde vinha o terror, então? Quem o provocava? Alguns desses que estiveram no Panamá, nestes dias, como o agente da CIA Rodriguez, que foi quem assassinou Che Guevara e levou suas mãos cortadas para testar suas impressões digitais, não sei em que lugar, que se tratava do cadáver de Che Guevara, que mais tarde nós conseguimos recuperar pela gestão de um governo amigo na Bolívia. Mas, ora bem, a partir desse momento fomos terroristas.

Eu realmente peço desculpas, inclusive, até ao presidente Obama e a outras pessoas presentes nesta atividade por me expressar assim. Eu disse pessoalmente a ele que quando se trata da Revolução eu sinto uma paixão desbordada através dos poros.

Peço desculpas porque o presidente Obama não tem responsabilidade com nada disso. Quantos presidentes norte-americanos já tivemos? Dez antes dele, todo mundo está em dívida conosco, a não ser o presidente Obama.

Depois de dizer muitas coisas fortes a cerca de um sistema é justo pedir desculpas, porque eu estou entre aqueles que acreditam — e assim já disse a alguns chefes de Estado e de governo que vejo aqui, em reuniões privadas que tive com eles no meu país, ao recebê-los — que, na minha opinião, o presidente Obama é um homem honesto. Eu li um pouco de sua biografia nos dois livros que têm sido publicados, não totalmente, farei isso com mais calma. Admiro sua origem humilde, e eu acho que a forma que ele é se deve a essa origem humilde (APLAUSOS PROLONGADOS).

Meditei muito para dizer estas palavras, inclusive as tive escritas e as apaguei; as voltei a colocar e as voltei a remover, e no fim, acabei proferindo-as; e estou satisfeito.

Até hoje, o bloqueio econômico, comercial e financeiro aplica-se em pleno vigor contra a Ilha, causando danos e carências às pessoas e é o principal obstáculo para o desenvolvimento da nossa economia.

Constitui uma violação do Direito Internacional e seu alcance extraterritorial afeta os interesses de todos os Estados.

Não é por acaso o voto quase unânime, menos o de Israel e dos próprios Estados Unidos, na ONU durante muitos anos a fio. E, enquanto existir o bloqueio, que não é da responsabilidade do presidente, e que devido a acordos e leis posteriores se codificou com uma lei no Congresso que o presidente não pode alterar, devemos continuar lutando e apoiando o presidente Obama em suas intenções de liquidar o bloqueio (APLAUSOS).

Uma questão é estabelecer relações diplomáticas e outra questão é o bloqueio. Por isso, peço a todos vocês, e também a vida nos obriga, a continuar apoiando a luta contra o bloqueio. Excelências: Nós expressamos publicamente ao presidente Obama, que também nasceu no âmbito da política de bloqueio contra Cuba, nosso reconhecimento por sua corajosa decisão de se envolver em um debate com o Congresso dos Estados Unidos para pôr fim ao bloqueio.

Este e outros elementos devem ser resolvidos no processo rumo à futura normalização das relações bilaterais. Pela nossa parte, continuaremos empenhados no processo de atualização do modelo econômico cubano, a fim de aperfeiçoar nosso socialismo, avançar rumo ao desenvolvimento e consolidar as conquistas de uma Revolução que se propôs “conquistar toda a justiça” para nosso povo.

O que faremos está em um programa desde o ano 2011, aprovado no Congresso do Partido. No próximo Congresso, que é no próximo ano, vamos estendê-lo, vamos analisar o que temos feito e quanto ainda temos de enfrentar o desafio. Estimados colegas: Devo advertir que vou pela metade, se quiserem acabo aqui ou continuo se estiverem interessados. Vou acelerar um pouco (RISOS).

A Venezuela não é nem pode ser uma ameaça para a segurança nacional de uma superpotência como os Estados Unidos (APLAUSOS).

É bom que o presidente dos EUA tenha reconhecido isso.

Devo reafirmar nosso apoio, de maneira resoluta e leal, à irmã República Bolivariana da Venezuela, ao governo legítimo e à aliança civil-militar liderada pelo presidente Nicolas Maduro, ao povo bolivariano e chavista que luta para seguir seu próprio caminho e enfrenta tentativas de desestabilização e sanções unilaterais que nós reclamamos sejam levantadas, que a Ordem Executiva seja revogada, embora seja difícil de acordo com a lei, o que seria apreciado por nossa Comunidade como uma contribuição para o diálogo e o entendimento hemisférico.

Nós sabemos. Eu acho que posso ser dos que estamos aqui reunidos um dos poucos que melhor conhece o processo da Venezuela, não é porque nós estamos lá nem estejamos influenciando lá e eles nos digam todas as coisas a nós. Sabemos o que eles estão passando porque nós atravessamos esse mesmo caminho e eles estão sofrendo os mesmos ataques que sofremos, ou parte deles.

Vamos manter nosso encorajamento aos esforços da Argentina para recuperar as Ilhas Malvinas, as Geórgias do Sul e as Sandwich do Sul, e continuar apoiando sua legítima luta em defesa da soberania financeira. Continuaremos apoiando as ações da República do Equador contra as empresas transnacionais que causam danos ecológicos a seu território e procuram impor condições injustas.

Eu gostaria de agradecer a contribuição do Brasil e da presidente Dilma Rousseff, ao fortalecimento da integração regional e do desenvolvimento de políticas sociais que trouxeram progresso e benefícios para amplos setores, as quais, em meio da ofensiva contra vários governos de esquerda da região, se pretende reverter.

Será invariável nosso apoio ao povo latino-americano e caribenho de Porto Rico, em seus esforços para alcançar a autodeterminação e a independência, como já declarou dezenas de vezes o Comitê de Descolonização das Nações Unidas. Continuaremos também a nossa contribuição para o processo de paz na Colômbia, até sua conclusão bem sucedida.

Devemos nós todos multiplicar a ajuda ao Haiti, não apenas através de ajuda humanitária, mas também com recursos que permitam seu desenvolvimento e apoiar que os países do Caribe recebam tratamento justo e diferenciado em suas relações econômicas e reparações pelos danos causados pela escravidão e o colonialismo. Vivemos sob a ameaça de enormes arsenais nucleares que devem ser eliminados e da mudança climática que nos deixa sem tempo.

Aumentam as ameaças à paz e proliferam os conflitos. Tal como expressou o presidente Fidel Castro, “as causas fundamentais são a pobreza e o subdesenvolvimento, bem como a distribuição desigual da riqueza e do conhecimento que prevalece no mundo. Não se pode esquecer que o subdesenvolvimento e a pobreza atuais são resultado da conquista, da colonização, a escravidão e o saqueio de boa parte da Terra pelas potências coloniais, o surgimento do imperialismo e as guerras sangrentas para novas partilhas do mundo.

A humanidade deve tomar consciência do que fomos e do que não podemos continuar sendo. Hoje — continuou Fidel — nossa espécie adquiriu conhecimentos, valores éticos e recursos científicos suficientes para avançar em direção a uma etapa histórica da verdadeira justiça e humanismo. Nada do que existe hoje na ordem econômica e política serve os interesses da humanidade. Não se pode sustentar.

É preciso mudá-lo”, concluiu Fidel. Cuba continuará defendendo as ideias pelas quais nosso povo assumiu os maiores sacrifícios e riscos e lutou ao lado dos pobres, dos doentes sem assistência médica, os desempregados, as crianças abandonadas a sua sorte ou forçadas à prostituição, os que têm fome, os discriminados, os oprimidos e os explorados que constituem a grande maioria da população mundial.

A especulação financeira, os privilégios de Bretton Woods e a remoção unilateral da convertibilidade do dólar em ouro são cada vez mais sufocantes.

Nós exigimos um sistema financeiro transparente e equitativo. É inaceitável que menos de uma dúzia de empórios, principalmente norte-americanos — quatro ou cinco de sete ou oito — determinem o que as pessoas podem ler, ver ou escutar no planeta.

Internet deve ter uma governança internacional, democrática e participativa, especialmente na geração de conteúdos.

É inaceitável a militarização do ciberespaço e o emprego encoberto e ilegal de sistemas informáticos para agredir outros Estados. Nós não nos vamos deixar deslumbrar ou colonizar novamente. Acerca da Internet, que é uma invenção fabulosa, uma das maiores nos últimos anos, bem poderíamos dizer, recordando o exemplo da linguagem nas fábulas de Esopo: que a Internet serve para o melhor e é muito útil; mas, por sua vez, também serve para o pior.

Senhor Presidente: Na minha opinião, as relações hemisféricas mudaram profundamente, em particular nos domínios político, econômico e cultural; de modo que, com base no Direito Internacional e no exercício da autodeterminação e da igualdade soberana, estejam concentradas no desenvolvimento de relações mutuamente benéficas e na cooperação para servir aos interesses de todas as nossas nações e aos objetivos que as proclamam.

A aprovação, em janeiro de 2014, na Segunda Cúpula da Celac, em Havana, do Proclama da América Latina e do Caribe como uma zona de paz, foi uma importante contribuição para este fim, marcado pela unidade da América Latina e do Caribe em sua diversidade. Isso se torna evidente no fato de que avançamos rumo a processos de integração genuinamente latino-americanos e caribenhos, através da Celac, Unasul, Caricom, o Mercosul, a ALBA, SICA e a Associação dos Estados do Caribe, que sublinham a crescente conscientização da necessidade de unirmo-nos para garantir nosso desenvolvimento. Este proclama nos compromete a que “as diferenças entre as nações sejam resolvidas pacificamente, através do diálogo e da negociação e outras formas de solução, e em plena conformidade com o direito internacional”.

Viver em paz, cooperando uns com os outros para enfrentar os desafios e resolver os problemas que, afinal, nos afetam e afetarão a todos, hoje é um imperativo.

Devem ser respeitados, como diz o Proclama da América Latina e do Caribe como Zona de Paz, assinado por todos os Chefes de Estado e de Governo da Nossa América, “o direito inalienável de todos os Estados a escolher seu sistema político, econômico, social e cultura, como condição essencial para garantir a coexistência pacífica entre as nações”.

Com ele, nos comprometemos a cumprir nosso “dever de não intervir direta ou indiretamente, nos assuntos internos de qualquer outro Estado e observar os princípios da soberania nacional, a igualdade de direitos e a livre determinação dos povos” e respeitar “os princípios e normas do Direito Internacional (...) e os princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas”.

Esse documento histórico exorta “todos os Estados membros da comunidade internacional a respeitar plenamente esta declaração em suas relações com os Estados membros da Celac”. Agora temos a oportunidade para que todos os que estamos aqui aprendamos, tal como expressa o Proclama, “a praticar a tolerância e viver em paz como bons vizinhos”.

Existem discrepâncias substanciais, sim, mas também pontos comuns nos quais podemos cooperar para que seja possível viver neste mundo cheio de ameaças à paz e à sobrevivência humana.

O que impede que em nível hemisférico — como expressaram alguns dos presidentes que me antecederam no uso da palavra — cooperar para combater a mudança climática?

Por que não podemos os países das duas Américas, a do Norte e a do Sul, lutar juntos contra o terrorismo, o tráfico de drogas ou o crime organizado, sem posições politicamente tendenciosas? Por que não procurar, em parceria, os recursos necessários para prover o hemisfério de escolas, hospitais — mesmo que não sejam de luxo, um pequeno hospital modesto, naqueles lugares onde as pessoas morrem porque não há médico — dar emprego, promover o erradicação da pobreza?

Acaso não se poderia reduzir a desigualdade na distribuição da riqueza, reduzir a mortalidade infantil, eliminar a fome, erradicar as doenças evitáveis e eliminar o analfabetismo? No ano passado, nós estabelecemos a cooperação hemisférica para enfrentamento e prevenção do Ebola e países das duas Américas trabalhamos em conjunto, o que deve servir como um estímulo para maiores esforços.

Cuba, país pequeno e desprovido de recursos naturais, que se tem desenvolvido em um contexto sumamente hostil, conseguiu atingir a plena participação de seus cidadãos na vida política e social da nação; uma cobertura de educação e saúde universais, de forma gratuita; um sistema de segurança social que garante que nenhum cubano fique desamparado; significativos progressos rumo à igualdade de oportunidades e no enfrentamento a toda forma de discriminação; o pleno exercício dos direitos da infância e da mulher; o acesso ao deporte e a cultura; o direito à vida e a segurança dos cidadãos.

Apesar das carências e dificuldades, cumprimos o lema de compartilhar o que temos. Atualmente, 65 mil colaboradores cubanos trabalham em 89 países, sobretudo nas esferas da medicina e educação. Em nossa Ilha formaram-se 68 mil profissionais e técnicos, deles, 30 mil da saúde, de 157 países.

Se com muito escassos recursos, Cuba pôde, o que é não poderia fazer o hemisfério com a vontade política de juntar esforços para contribuir com os países mais necessitados? Graças a Fidel é ao heróico povo cubano, temos vindo a esta Cúpula para cumprir o mandato de José Martí com a liberdade conquistada com nossas próprias mãos, “orgulhosos de nossa América, para servi-la e honrá-la... com a determinação e a capacidade de contribuir para que seja estimada por seus méritos, e seja respeitada por seus sacrifícios”, como disse José Martí. Senhor Presidente: Perdão, a vocês todos, pelo tempo ocupado. Muito obrigado a todos (APLAUSOS).


Solidários a Cuba: Viva a Revolução Cubana, por Eduardo Galeano

Solidários a Cuba







"EU TINHA 12 ANOS QUANDO HOUVE O ASSALTO A MONCADA"

Por Eduardo Galeano

Eu tinha doze anos quando do assalto ao Moncada, dezesseis no desembarque do Granma, dezoito quando os guerrilheiros entraram, vitoriosos, em Havana. Os homens da minha geração tivemos a sorte de coincidir, no tempo, com a Revolução Cubana. Que desde o começo se misturou na vida e entrou na alma. Junto a muitos milhões de homens, celebro esta revolução como se fosse minha.

Ela me transmitiu forças quando me sentia cair. Me contagiava energia dia após dia, ano após ano, ao longo do processo que a colocou a salvo da derrota ou da traição. Cuba quebrou em pedaços a estrutura da injustiça e confirmou que a exploração de umas classes sociais por outras e de uns países por outros não é o resultado de uma tendência "natural" da condição humana, nem está implícita na harmonia do universo. Muitos muros se levantaram diante deste vento de boa fúria popular.

A colônia se fez pátria e os trabalhadores, donos do seu destino. A mulher deixou de ser uma passiva cidadã de segunda classe. Se acabou o desenvolvimento desigual que em toda a América Latina castiga o campo ao mesmo tempo que incha umas poucas cidades babilônicas e parasitárias. Não se vê mais a fronteira que separa o trabalho intelectual do trabalho manual, resultado das tradicionais mutilações que nos reduzem a uma única dimensão e nos fraturam a consciência.


Não foi nada fácil esta proeza nem foi linear o caminho. Quando verdadeiras, as revoluções ocorrem nas condições possíveis. Em um mundo que não admite arcas de Noé, Cuba criou uma sociedade solidária a um passo do centro do sistema inimigo. Em todo esse tempo tenho amado muito esta Revolução. E não somente em seus acertos, o que seria fácil, senão também em seus tropeços e em suas contradições.

Também em seus erros me reconheço: este processo tem sido realizado por pessoas simples, gente de carne e osso, e não por heróis de bronze nem máquinas infalíveis. A Revolução Cubana tem me proporcionado uma incessante fonte de esperança. Aí estão, mais poderosas que qualquer dúvida ou conserto, essas novas gerações educadas para a participação e não para o egoísmo, para a criação e não para o consumo, para a solidariedade e não para a competição. E aí está, mais forte que qualquer desânimo, a prova viva de que a luta pela dignidade do homem não é uma paixão inútil e a demonstração, palpável e cotidiana de que o mundo novo pode ser construído na realidade e não só na imaginação dos profetas.  

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